3. - Da "questão empírica": o sentido, as orientações, os propósitos e a linguagem da acção.

 

Podemos dizer que Weber introduz o "sentido" como um dos conceitos fundamentais da sua teoria da acção e distingue as acções do comportamento observável recorrendo a essa categoria.

 

No seu livro Economie et Societé, Weber refere:

"Nós entendemos por «actividade» um comportamento humano (pouco importa que se trate de um acto exterior ou interior, de uma omissão ou de uma tolerância), se e na medida em que os actores atribuem a esse agir um sentido subjectivo"(WEBER, 1971:14).

 

E do ponto de vista de Habermas, com esta definição, Weber não tem em último plano uma teoria da significação, mas sim "uma teoria intencionalista da consciência".(HABERMAS, 1987-I:289)

 

O que Weber entende por «sentido» não o explícita a partir do modelo de significações linguísticas; "não refere o «sentido» ao médium linguístico da intercompreensão possível, mas sim às opiniões e intenções de um sujeito da acção que Weber representa de início como sujeito isolado"(HABERMAS, 1987-I:289).

Assim, Weber parte de um modelo de acção concebido de maneira monológica, não podendo então introduzir o conceito de «agir social», de certa forma também pelo enviesamento da sua explicação de «sentido». Para que sejam satisfeitas as condições de interacção social, Weber vai desdobrar o seu modelo de actividade de finalidade, em duas determinações: a) - As orientações a partir do comportamento de outros sujeitos da acção; e, b) - A relação reflexiva das orientações da acção que estabelecem entre si muitos participantes da interacção.

"Numa ciência que se propõe estudar o significado subjectivo da acção, a explicação desse significado exige a apreensão de um feixe de sentidos (sinnzusammenhang) no qual se integra a trajéctoria da acção inteligível a interpretar"(WEBER, 1971, in Giddens, 1994:209).

 

Então, a compreensão da motivação implica necessariamente relacionar a conduta específica em causa com um padrão normativo mais lato, que rege aquela conduta do indivíduo.

" Indivíduos diferentes podem executar acções semelhantes levados por motivos muito diversos, e por outro lado, motivos semelhantes podem estar ligados a diferentes formas concretas de comportamento"(WEBER, 1971, in Giddens, 1994:210).

 

Resumindo, - Esta tipologia («agir» racional por relação a um fim, por relação a um valor, agir afectivo e agir tradicional) apoia-se sobre as categorias de objectivos de acção segundo os quais o actor pode orientar-se na sua actividade com finalidade (por relação a um fim). Segundo Habermas, trata-se de objectivos utilitaristas, axiológicos e afectivos, sendo a «actividade tradicional» uma categoria residual.

 

O interesse de que se reveste esta tipologia é a evidência com que distingue os graus da racionalização do agir.

Segundo Habermas, Weber, não se orienta pelo conceito de relação social; "o que ele considera como um aspecto susceptível de racionalização é apenas a relação meios-fins de uma acção monológica representada como teleológica"  (HABERMAS, 1987-I:291).

"Como toda a actividade, a actividade social pode também ser determinada 1) de forma racional por relação a um fim, através das expectativas relativas ao comportamento de outros homens, e explorando as expectativas como «condições» ou como «meios» em vista de fins próprios, cujo sucesso supõe que eles têm sido racionalmente prosseguidos e bem pensados; 2) de maneira racional por relação a um valor, pela crença consciente no valor intrínseco incondicionado, de ordem ética, estética, religiosa ou outra - de um comportamento determinado, considerado puramente em si mesmo e independentemente do sucesso; 3) de maneira afectiva, em particular emocional, pelos afectos e sentimentos actuais; 4) de maneira tradicional, por um hábito inveterado" (WEBER, 1971:22).

 

" Comporta-se de maneira racional por relação a um fim o actor que escolhe os fins num horizonte de valores claramente articulados, e que organiza os meios apropriados tendo em vista consequências alternativas" (HABERMAS, 1987-I:291, seguindo a interpretação de Shluchter).

 

Na sequência dos tipos de acção propostos por Weber, aparece segundo Habermas, um acanhamento gradual da "consciência do sujeito agente": "as consequências aparecerão progressivamente nubeladas ao nível do sentido subjectivo, e portanto retiradas ao control racional na actividade racional por relação a um valor; depois as consequências e os valores na actividade afectiva; e finalmente o fim em si mesmo na actividade que não é mais do que factualmente submissa ao hábito"(HABERMAS, 1987-I:292).

 

Entretanto, Weber encontra outros aspectos da "racionalidade da acção" quando ensaia adoptar uma tipologia ao nível conceptual da "actividade social".

"As acções sociais podem ser distinguidas em função de mecanismos de coordenação da acção, conforme uma relação social repouse apenas sobre situações de interesse ou igualdade sobre um acordo normativo."( HABERMAS, a propósito de Weber)

 

É então que Weber faz a distinção entre a "existência puramente factual de uma ordem económica" e a "validade social de uma ordem jurídica"; "as relações sociais devem a sua existência, lá (na ordem económica), à intricação factual de situações de interesse, aqui (na ordem jurídica), ao reconhecimento de pretensões normativas de validade." (HABERMAS, 1987-I:293)

 

Na perspectiva de Habermas, a conceptualidade da versão de M. Weber é tão estreita que as acções sociais não podem ser julgadas neste quadro senão sob o aspecto da racionalidade por relação a um fim; "(...) e nesta perspectiva, a racionalização dos sistemas da acção deve limitar-se a prosseguir e a alargar os tipos específicos de sub-sistemas da actividade racional por relação a um fim; (...) para que os processos de racionalização social possam ser estudados em toda a sua amplitude são necessários outros fundamentos da teoria da acção."(HABERMAS, 1987-I:294)

 

Em T. Parsons, "A acção consiste em estruturas e processos através dos quais os seres humanos formam intenções significativas e, com maior ou menor êxito executam-nas em situações concretas"(PARSONS, 1969:16; ed. orig. 1966).

 

Nesta perspectiva as "intenções" e a "execução" pressupõem uma prévia disposição "do sistema de acção", individual ou colectivo, para modificar a sua relação com a sua "situação ou ambiente", numa direcção pretendida.

 

Embora, Parsons, considere que a "acção humana" é "cultural" na medida em que "os sentidos e as intenções referentes aos actos são formados através de sistemas simbólicos (onde se incluem os códigos através dos quais eles actuam em padrões) que quase sempre se centralizam no aspecto universal das sociedades humanas, isto é, na linguagem"(PARSONS, 1969:17); o autor dá importância central à análise de sistemas sociais.

"O sistema social é o subsistema integrativo da acção em geral ... cada um dos outros três sistemas de acção (cultura, personalidade e comportamento) constitui uma parte do ambiente de um sistema social ... o sistema social é constituído pela intervenção de indivíduos humanos, onde cada membro é actor (que tem objectivos, ideias, atitudes, etc.) e é objecto de orientação, tanto para si mesmo, como para outros actores"(PARSONS, 1969:20).

 

Relativamente a esta argumentação de Parsons, Habermas realça que a "atribuição de funções fundamentais aos subsistemas da sociedade, pode mascarar o facto de que em domínios importantes como a reprodução cultural, a integração social e a socialização, as interacções sociais em que assentam, não sejam tão especializadas como o são as interacções nas esferas da acção da economia e da política"(HABERMAS, 1987-I:21).

 

Na perspectiva de Weber e Luckmann, e do seu ponto de vista acerca do processo quotidiano de "interacções sociais face-a-face", a linguagem desempenha um papel fundamental.

A linguagem constrói "campos semânticos" através do "vocabulário, da gramática e da sintaxe" que se organizam em função de cada campo semântico.

A linguagem constrói "esquemas de classificação" e de "significado" e "símbolos", tornando-se componentes essenciais da "realidade da vida quotidiana e da apreensão pelo senso comum desta realidade"(BERGER e LUCKMANN, 1987:61).

 

Então, "a vida quotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelo homem e subjectivamente dotada de sentido para eles, na medida em que forma um mundo coerente".

 

Este mundo que está ao meu alcance, é aquele onde actuo a fim de "modificar a sua realidade", é o mundo "onde vivo", "onde trabalho".

Então, a "linguagem comum de que disponho para a objectivação das minhas experiências funda-se na vida quotidiana e conserva-se sempre apontada para ela, mesmo quando a utilizo para interpretar experiências em campos delimitados de significação" (ex: os sonhos ...)(BERGER e LUCKMANN, 1987:43).

"A compreensão da linguagem é por isso essencial para a compreensão da realidade da vida quotidiana"(BERGER e LUCKMANN, 1987:57).

 

Touraine coloca-se numa perspectiva que compreende acção social quando se reúnem três condições: - quando a acção é orientada para certos fins; - quando o agente é colocado nos sistemas de relações sociais; - e, quando a interacção se transforma em comunicação graças à utilização de sistemas simbólicos.

"Não existe acção social senão quando orientada por valores, inserida em formas sociais e em campos de decisão e utilizando modos de expressão simbólica" (TOURAINE, 1965:453).

 

As "orientações normativas da acção histórica" são directamente "comandadas pela situação do trabalho, quer dizer, pela vontade de criação e de controle do trabalhador num meio técnico, ou pela sua alienação (...), no entanto as exigências que o trabalho comporta não são exprimidas por todos os indivíduos, elas definem a consciência operária ou, mais teoricamente e mais genericamente, o sujeito histórico. Mas, esta já não é uma realidade empiricamente observável. (...) Nenhuma forma de organização social ou de acção cultural pode ser compreendida - pelo menos nas suas orientações normativas, - fora de uma referência directa ao sujeito histórico. (...) Em particular, os conflitos de poder, conflitos de classe nas sociedades históricas pré-industriais, alienações tecnicistas, burocráticas ou políticas na civilização industrial, devem ser explicadas a partir do trabalho, não como situação dada, mas como acção social"(TOURAINE, 1965:10).

 

Nesta perspectiva, a acção não pode definir-se apenas como resposta a uma situação social, mas ela é essencialmente - "criação, inovação e atribuição de sentido", constituindo-se num "movimento social criado por conflitos, por instituições, por relações sociais novas"(TOURAINE, op. cit.).

 

Então, a compreensão do sentido de uma acção social assim concebida, "não pode reduzir-se nem à compreensão da adaptação do agente a um sistema mais ou menos institucionalizado de normas sociais, nem tão pouco à compreensão das operações do espírito que manifesta toda a actividade social". Se a acção não é apenas uma conduta social, então os valores culturais e sociais que a orientam devem eles próprios ser explicados e não apenas colocados; pois esses valores são apenas exigências da própria acção, ou seja, exigências do sujeito envolvido no trabalho, na relação com os outros e numa natureza humana"(TOURAINE, 1965:9).

 

Por outro lado, o autor reconhece que as "orientações normativas da acção não se deixam compreender na sua totalidade, a partir da relação do homem com as suas obras ... pois se a acção é sempre, de certa forma, colectiva, isto significa que a acção supõe orientações até ao outro", ou seja, pressupõe um processo de "sociabilidade"(TOURAINE, 1965:11).

 

Tourraine, reconhece o "trabalho" como um exemplo de uma "acção sobre o mundo", referindo que esta acção não pode ser definida, independentemente do seu sentido para o sujeito, nomeadamente, da vontade de criar obras, da vontade de produzir, controlar e decidir da utilização do seu produto; considerando ainda, que definir esta acção (o trabalho) implica uma dupla exigência de "criação e controle".

 

Para Tourraine, o "trabalho" é a "condição histórica do homem" ou seja a sua "experiência significativa" a partir da qual podem compreender-se as obras de civilização e as formas de organização social. No entanto, considera ser inútil perguntar-se se o homem é mais profundamente definido pelo trabalho, pela linguagem ou pelas relações sociais.

 

Então a primeira tarefa da sociologia da acção seria, deste ponto de vista,  recusar metodicamente qualquer noção directamente atribuída à realidade social, e sobretudo a interpretação dada pelos indivíduos ou as colectividades acerca da sua acção.

 

Qualquer que seja a utilidade prática não podemos contentar-nos com proposições que apenas permitem correlacionar uma situação objectiva profissional ou económica com certas condutas sociais, mas que não permite definir o sentido de uma acção (TOURAINE, 1965:471-472).

"Numa pesquisa bem conduzida (...) constrói hipóteses propõe um sentido aos fenómenos observados e aceita vir a terminar em sucesso ou em insucesso, recusando contudo, a consolação que trás um certo número de correlações surgidas aqui ou ali no seio do conjunto dos factos tratados. (...) O método científico em sociologia, qualquer que sejam as formas particulares que opte, opõe-se à sociologia sistemática que organiza, por generalização e tipologisação, o dado directamente observado.(...)O método tipológico permite construir conjuntos, ou tipos ideais, sem que esta construção seja sistemática"(TOURAINE, 1965:472-473)

 

P.Bourdieu parte da critica de alguns equivocos fundamentais que atribui à teoria da acção "a qual faz do sentido o objectivo das praticas ou das obras o fim objectivo da acção, dos produtos dessas práticas ou dessas obras"; exemplificando, refere "o impossível homo economicus submetendo suas decisões ao cálculo racional, seus actores executando papéis ou agindo conforme modelos, ou seus locutores escolhendo entre fonemas"(ORTIZ, Renato (org,), 1983:60 a propósito de P. Bourdieu).

 

Podemos concluir, referindo Corcuff, que P. Bourdieu, reteve, da obra de Marx, -a ideia de que a realidade social é um conjunto de "relações de forças" entre grupos sociais historicamente em luta uns com os outros; da obra de Weber, -que a realidade social é também um conjunto de "relações de sentidos", tendo pois uma dimensão simbólica; no entanto para Bourdieu, embora as representações e a linguagem participem na construção da realidade social, elas não constituem toda a realidade social. Mas, na sua perspectiva, é necessário que certas condições sociais exteriores às representações e aos próprios discursos sejam preenchidos para que estes tenham uma certa eficácia sobre a realidade -trata-se de condições favoráveis, previamente inscritas nas mentes e nas instituições (CASANOVA, 1995:43).

"Nós agimos num mundo que impõe a sua presença, com as suas urgências, as suas coisas a serem feitas ou a serem ditas, as suas coisas feitas para serem ditas, que comandam directamente os gestos ou as palavras sem nunca se manifestarem como um espectáculo (...) para todo um conjunto de acções, podemos mesmo passar da prática à prática, à margem do discurso e da consciência (...) a acção obedece a uma lógica que não é a da lógica; (...) uma lógica prática, de certo modo discernida por aquele que a realiza"(BOURDIEU, P., 1980:87,124,144 e 154).

P. Corcuff realça que, P. Bourdieu distingue bem duas posições: a do observador que reflecte e disserta sobre a acção; e a do agente que age "levado" pelo "calor da acção" com as suas necessidades.

A "relação prática com a prática" leva P. Bourdieu a atribuir uma competência central aos agentes -"o sentido prático".

"O sentido prático" concebido como "parte integrante do habitus", permite ao agente "economizar reflexão e energia na acção"; é um "operador da economia da prática"; está inscrito "no corpo e nos movimentos do corpo" e não se exerce senão em situação, perante "problemas práticos"(CORCUFF, P., 1995:46).

 

Assim, P. Bourdieu introduz a questão das "lógicas práticas"; embora no seu pensamento não esteja claramente estabelecido o recurso a uma reflexividade pragmática: -"como uma dimensão que o agente toma por vezes em consideração, em particular quando se debruça sobre os períodos de crise, uma vez que, nessas ocasiões, não sendo possível accionar «ajustamentos rotineiros», a reflexividade do agente é francamente solicitada"(CORCUFF, P., 1992:107).

 

Do ponto de vista de Habermas, "tanto a sociologia como a antropologia cultural encontram-se confrontados com o espectro total das manifestações do agir social. "Não se preocupam com os tipos de acção relativamente bem circunscritos, os quais podemos esquematizar como variantes da actividade racional por relação a um fim, desde que se olhem pelo ângulo de certos problemas, tais como, a maximização dos ganhos ou a conquista e o exercício do poder político"(HABERMAS, 1987-I:21).

 

 Desta perspectiva, estas duas disciplinas ocupam-se da prática quotidiana em contextos do mundo vivido; então devem ter em consideração todas as formas de orientação da acção pelos símbolos; e não podem ainda distanciar-se da problemática dos fundamentos da teoria da acção e da compreensão do sentido na interpretação; pois estas duas disciplinas defrontam-se com as estruturas do mundo vivido e estas estruturas são elas próprias subjacentes aos sistemas parciais cada vez mais específicos no plano funcional e em certa medida, cada vez mais diferenciados.

Para Habermas, as acções sociais podem ser distinguidas em função da atitude adoptada pelos participantes: atitude orientada para o sucesso ou atitude orientada para a intercompreensão; devendo estas atitudes, poder ser identificadas pelo olhar do saber intuitivo dos próprios participantes.

 

Para explicar o conceito de intercompreensão, Habermas indica o que quer dizer utilizar frases numa intenção comunicacional partindo do pressuposto de que os conceitos de linguagem e de intercompreensão interpretam-se mutuamente.

 

É por isso que, diz poder analisar as características pragmáticas-formais da atitude orientada para a intercompreensão, tomando por modelo a atitude dos participantes de uma interacção, onde uma parte produz um acto de linguagem e, a outra toma, por relação a este acto, uma posição por «sim» ou «não» (mesmo se as expressões produzidas pela prática comunicacional quotidiana não têm na maior parte do tempo uma forma explicitamente linguística, nem mesmo frequentemente uma forma verbal em geral).

 

No entanto, realça que nem toda a intervenção mediatizada pela linguagem, oferece um exemplo de actividade orientada para a intercompreensão, nem pode ser concebida como uma solução de um problema de coordenação entre sujeitos cuja actividade seja orientada para o sucesso; para ultrapassar a eventualidade deste possível equívoco, realça as vantagens do recurso à teoria da significação.

 

Então, o autor admite que, podemos recorrer às funções de intercompreensão linguística para explicar que "a comunhão intersubjectiva" de um acordo obtido pelo processo comunicacional, existe a três níveis - ao nível da assentimento normativo, ao nível do saber proposicional partilhado e, ao nível da confiança mútua na sinceridade subjectiva. E ainda, que os "actos de linguagem", enquanto meio de intercompreensão,

 

-      permitem instaurar e renovar as relações interpessoais, razão pela qual o locutor faz referência a qualquer coisa no mundo das ordens legítimas;

-      permitem apresentar ou pressupor estados de coisas e de acontecimentos, razão pela qual o locutor se refere a qualquer coisa no mundo dos conteúdos materiais existentes; e

-      permitem manifestar experiências vividas e, para se auto-apresentar, razão pela qual o locutor se refere a qualquer coisa no mundo subjectivo ao qual ele tem um acesso privilegiado.

 

No entanto, chama-nos à atenção para o contributo de Kreckel (KRECKEL in Habermas, op. cit.329 e seguintes) no que respeita à análise e classificação pragmática das acções linguísticas referentes a comunicações quotidianas; na perspectiva de Kreckel, consideram-se importantes alguns indicadores que se referem a "dimensões universais da situação de linguagem". Na linguagem temporal coloca-se a questão de saber se os participantes se orientam sobretudo para o futuro, o passado ou o presente, ou se as acções linguísticas são temporalmente neutras. Na dimensão social, trata-se de saber se as obrigações pertinentes para os sujeitos da interacção são colocados ao locutor, ao auditor, ou às duas partes. Na dimensão material, a questão é saber se o "centro de gravidade" temático reside sobretudo do lado dos objectos ou das acções ou dos actores.

Na perspectiva de Habermas, a vantagem desta e outras classificações semelhantes, reside no facto de que elas procuram um fio condutor e estão mais à altura da complexidade de cenas reais, do que outras tipologias que realçam intenções e objectivos linguísticos acerca de traços característicos de situações.

 

No sentido de avaliar a base de validade dos actos discursivos, Habermas seguindo a classificação de Searle, encontra uma diversidade dos tipos de acções linguísticas agrupadas segundo as suas funções:

 

-   acções linguísticas constatativas, onde são utilizadas frases elementares portadoras de enunciados; pelas quais o locutor refere-se a qualquer coisa no mundo objectivo, de maneira a poder restituir estados de coisas. A negação de uma tal expressão significa que o auditor contesta a pretensão da verdade evidenciada pelo locutor na sua proposição afirmada;

-   acções linguísticas expressivas, onde aparecem frases elementares portadoras de experiências vividas (na primeira pessoa); aqui o locutor refere-se a qualquer coisa no mundo subjectivo, de maneira a poder desvendar perante um público, uma experiência vivida à qual ele tem um acesso privilegiado. A negação de uma tal expressão significa que o auditor põe em dúvida a pretensão de veracidade da auto-apresentação, evidenciada pelo locutor;

-   acções linguísticas reguladoras, onde se apresentam quer frases elementares portadoras de ordens (como nas imposições), quer frases elementares portadoras de intenções (como nas promessas); o locutor refere-se a qualquer coisa no mundo comum social, de maneira a poder instaurar uma relação interpessoal reconhecida legítima. A negação de uma tal expressão significa que o auditor contesta a justiça normativa pretendida pelo locutor para a sua acção.

-   acções linguísticas imperativas, pelos quais o locutor refere-se a um estado desejado no mundo, de maneira a poder levar alguém a produzir este estado. Os imperativos podem ser criticados do ponto de vista do carácter realizável da acção exigida, e segundo as condições de sucesso. Contudo, a rejeição dos imperativos significa normalmente a recusa duma situação de poder; esta recusa não assenta numa crítica, mas faz essencialmente conhecer uma vontade do auditor.

-   acções linguísticas comunicativas que embora possam ser consideradas também como uma subclasse das acções linguísticas reguladoras (servindo para organizar discursos e a sua articulação por temas, para a distribuição de papeis nas discussões ...); na perspectiva de Habermas, é desejável que as acções linguísticas comunicativas sejam tidas como classe independente e definidas pela tomada de referência reflexiva no processo de comunicação. Pode-se aqui incluir os actos de linguagem que se referem a pretensões de validade (consentimentos, negações, confirmações, etc.) e à elaboração argumentativa de pretensões de validade (as fundamentações, as justificações, as refutações, as provas, etc.).

-   acções linguísticas operativas, que designam a aplicação de regras de construção (da lógica, da gramática, das matemáticas, etc.), mas que permitem igualmente concluir, identificar, contar, classificar, enumerar, titular, etc.

O autor identifica e distingue dois tipos de acções dependentes das respectivas orientações - acções orientadas para o sucesso e acções orientadas para a intercompreensão.

 

Mas quanto aos processos de intercompreensão, realça o facto de que a significação da expressão distingue-se (pode distinguir-se) da significação textual do que é dito, tendo essencialmente em conta a especificidade do contexto onde a expressão é produzida. Por outro lado, admite a existência de uma intercompreensão indirecta, desenrolando-se segundo um modelo da "semântica intencional"; quando, pelos efeitos pré-linguísticos, o locutor dá a compreender ao auditor qualquer coisa que ele não pode (ainda) comunicar directamente; nesta fase, então os actos pré-linguísticos devem ser introduzidos nos contextos da actividade comunicacional; sendo que os elementos estratégicos integrados através do uso da linguagem para a inter-compreensão, podem ser distinguidos das acções estratégicas.

 

Relativamente aos processos do agir estratégico, Habermas fala de "patologias da comunicação", ou seja, de "manifestações da comunicação sistemática deformada", afirmando poderem ser situações concebidas como o "resultado de uma confusão" entre as acções orientadas para o sucesso e as acções orientadas para a intercompreensão:

"Nas situações do agir estratégico oculto, um dos participantes pelo menos, orienta o seu comportamento para o sucesso, mas deixando querer aos outros que todas as pressuposições do agir comunicacional são satisfeitas".

É o caso da "manipulação (...) e da comunicação sistematicamente deformada. A arte de dominar inconscientemente conflitos que a psicanálise explica a partir de estratégias de defesa, conduz a perturbações da comunicação afectando simultaneamente os níveis intra-psiquico e inter-pessoal. Nestes casos, um dos participantes pelo menos, ilude-se a ele próprio, não vendo que a sua atitude na acção é orientada para o sucesso, e que ele não faz mais do que manter a aparência do agir comunicacional"(HABERMAS, op. cit.:340).

O esquema que o autor nos apresenta ilucida, no quadro de uma teoria comunicacional, a "comunicação sistematicamente deformada".

 

 

 

Fonte: HABERMAS, op. cit.

 

  Relativamente, ainda, às orientações da acção, Habermas mostra como as "acções sociais" incorporam "diferentes espécies de saber", não podendo ser "criticadas" ou "consertadas" apenas por referência ao princípio da racionalidade por relação a um fim como sendo o único aspecto para o efeito.

Então, nesta perspectiva, o agir comunicacional pode "tornar-se interessante" em primeiro lugar como princípio de socialização e depois simultaneamente, atribuindo um outro "valor" aos processos de racionalização social, na medida em que se pressupõe que estes processos de racionalização social se realizam essencialmente mediante as "estruturas retidas implicitamente do mundo vivido", e menos, pelas orientações da acção mencionadas explicitamente (como Weber se inclina a pensar).

 

No seu artigo "Langage de l'action et questionnement sociologique"(QUÉRÉ, L., 1993b-84., Louis Quéré parte do pressuposto de que "toda a sociologia" se confronta com uma propriedade específica da acção que é o facto de "poder dizer-se", e de "ser comunicável" numa linguagem que lhe parece específica - a "linguagem da acção"; sendo então necessário tomar posição quanto ao "tratamento" a reservar a esta "semântica natural da acção".

"Em geral, os sociólogos preocupam-se pouco com o que o seu questionamento, as suas teorizações e as suas análises devem àquela semântica, e preocupam-se ainda menos com o que a própria acção, como realidade inteligível e descritível, como objecto observável e analisável, lhe deve também"(QUÉRÉ, op. cit.:53) .

 

Nesta abordagem no que diz respeito à semântica natural da acção, o autor considera que a sociologia se encontra num dilema:

 

Por um lado a inquietação (le Souci) da ciência e a preocupação da "ruptura epistemológica" interdita-o de utilizar "os conceitos que são formados fora da ciência e para as necessidades que não têm nada de científico e incitam o pesquisador a demarcar-se das falsas evidências que dominam o espírito do vulgar"(QUÉRÉ, 1993b: 53-54.). Tratando-se então de dar conta das condutas e das práticas sociais numa perspectiva da explicação causal que subtitui por uma linguagem "neutra" a semântica natural da acção.

 

Por outro lado, a semântica natural da acção é elevada, de maneira espontânea ou de maneira analítica, à dignidade dos conceitos e dos métodos «cientificamente elaborados», de tal maneira que a sociologia possa dar conta da «acção social», e possa analisar as «acções singulares». Nesta perspectiva adopta-se como operações e como categorias de análise, as operações (por exemplo a imputação de acções singulares aos agentes munidos de objectivos, de intenções e de razões de agir) e as categorias que sustentam, nas práticas comunicativas da vida corrente, a configuração social da acção como realidade inteligível, observável e comunicável.

 

Segundo o autor, este dilema resulta principalmente de uma concepção «representacionista» da linguagem, que conduziu "a sociologia a considerar que a análise da acção coloca questões factuais para as quais pretende obter respostas informativas (...)(QUÉRÉ, op. cit.:54).

 

Por questões factuais, o autor entende as "questões que pretendem identificar os agentes concretos, os actos, os estados internos, as circunstâncias, as lógicas da acção, os acontecimentos, os desafios (enjeux), as significações, etc. São questões às quais é necessário responder mediante, julgamentos de factos válidos e através de explicações plausíveis capazes de fornecer as razões, as causas, os motivos ou os desafios reais de uma ou outra conduta, de uma ou outra prática, de uma ou outra acção individual ou colectiva"(OP. Cit.:54).

 

Para os agentes sociais, o questionamento inerente ao discurso da acção aparecia sem dúvida como um questionamento factual; mas a pretensão de chegar a explicações separadas de todo o contexto comunicativo é-lhe completamente estranha(Op. cit.: 54-55).

 

A estas perspectivas de análise ou ao questionamento da acção, o autor opõe um "questionamento gramatical":

"A emergência de acções inteligíveis e descritíveis, observáveis e comunicáveis, resulta então da aplicação duma gramática das ocorrências mundanas. Esta gramática determina a forma que devem tomar a individualização e a descrição dessas ocorrências"(Op. cit.:55). A gramática permite "configurar" a realidade; não necessita de ser fundada, justificada, corrigida, mas simplesmente reconstruída, analisada.

 

Quando a linguagem da acção é abordada do ponto de vista gramatical ela é apreendida como contribuição à constituição do campo prático.

"É a gramática que diz que género de objecto é qualquer coisa"(WITTGENSTEIN, 1961:373.).

Quéré, baseando-se no trabalho de P. Ricoeur (1990), aborda também as principais propriedades da linguagem específica da acção.

 

A linguagem específica da acção é entendida aqui como "um sistema conceptual", que comporta algumas noções como: - motivo, intenção, desejo, fim, deliberação, vontade, constrangimentos, resultados esperados, etc, as quais se organizam em rede, o que faz com que "s'entre-signifient ... de tal maneira que saber utilizar de maneira significante e apropriada uma destas noções, é saber utilizar de maneira significante e apropriada a rede na totalidades"(RICOEUR, 1990:75 in QUÉRÉ, 1993a:57.).

Esta rede conceptual permite configurar a acção em resposta a um questionamento que lhe é também específico.

 

Então, "o género de questões susceptíveis de serem colocadas ao sujeito da acção, são - o que fez ou fez o quê, porquê, como, em que circunstâncias, com que resultados e quais as consequências"(QUÉRÉ, 1993a:58).

 

Dado que também estas questões se inter relacionam, o autor considera, portanto  "que responder à questão - porquê - permite esclarecer a questão - o quê e quem - e vice-versa (...) e então as noções de agente e de acção tomam forma em função da rede total das questões e dos conceitos da linguagem específica da acção"(Op. cit.:58).

 

Um outro aspecto da especificidade da linguagem da acção é que a formulação de respostas pertinentes a estas questões, nos termos da sua rede conceptual, faz-se mediante formas de atribuição, de descrição e de explicação, apropriadas ao carácter intencional da acção. Trata-se de afirmar que a «explicação através dos motivos» (incluindo as intenções, os fins, os desejos, os sentimentos, as sensações e as emoções) é uma explicação causal particular, a explicação teleológica(QUÉRÉ baseia-se em TAYLOR, C. 1970 e RICOEUR, 1977).

 

É um tipo de explicação que dá conta da acção, não apenas através do fim visado, mas mostrando também que o agente está disposto ou inclinado a realizar a acção; incorporando esta disposição ou esta propensão num estado que é atribuído ao agente: "trata-se de um tipo de explicação causal homogénea em relação ao carácter intencional da acção"(RICOEUR, 1977).

 

 

4. Notas síntese

 

1)    Weber introduz o "sentido" e a "racionalização moderna das imagens do mundo" "racionalidade prática", como conceitos, fundamentos da sua teoria da acção, a partir dos quais distingue diversos tipos de acções de comportamento observável, atribuindo-lhe diversas intenções/orientações por parte do agente com base em diversos tipos de conhecimento. Weber defende o ponto de vista de que é possível fazer uma análise "objectiva" dos fenómenos históricos e sociais, apesar do facto de a actividade humana ser de carácter "subjectivo"; e que por outro lado, essa subjectividade não pode ser ignorada pelas ciências sociais. Weber analisa o método da compreensão do sentido de maneira a que os casos mais complexos possam ser relacionados com o caso limite da actividade racional por relação a um fim: "a compreensão do agir subjectivamente orientado para o sucesso, exige ao mesmo tempo uma avaliação objectiva deste agir, a partir dos critérios do que é racionalmente correcto"(WEBER, in Habermas:22). Na perspectiva do "esquema típico" de Weber, existem quatro tipos possíveis de agir "social": "a acção racional de propósitos" (por relação a um fim); a "acção racional de valor", a "acção afectiva" e a "acção tradicional". Então, com Weber aproximamo-nos do processo moderno de racionalização da sociedade: "A compreensão do mundo" pode ser transferida do nível da "tradição cultural" para o nível do "agir social", através dos "movimentos sociais", dos "sistemas culturais e sociais da acção" e da "institucionalização da actividade racional por relação a um fim" (agir racional).

 

2)    T. Parsons esboçou um "esquema geral de classificação" do "campo da acção humana", englobando quatro "subsistemas" muito gerais (o organismo comportamental, os sistemas de personalidade, o sistema social e o sistema cultural).

 

3)    Berger e Luckmann, situam a sua análise sobre a construção social da "realidade", a partir do "conhecimento" da vida quotidiana e da sua "interacção social", nas "situações de face a face", tendo aqui "a linguagem" um papel fundamental. Podemos então dizer que os fundamentos do conhecimento da vida quotidiana são, nesta perspectiva, a realidade, a interacção social, o conhecimento e a linguagem. A sociedade, enquanto "realidade objectiva", é uma "produção humana" e o "homem é uma produção social". "A vida quotidiana" será uma "realidade interpretada pelo homem e subjectivamente dotada de sentido para ele", na medida em que "forma um mundo coerente". E é através da "linguagem comum" fundada na vida quotidiana que "objectivo as minhas experiências" no mundo que está ao meu alcance, ou seja, experiências no mundo onde "actuo " a fim de "modificar a sua realidade", experiências no mundo "onde vivo", "onde trabalho".

Então, para estes autores, a realidade é também uma realidade subjectiva, interiorizada através da socialização (primária ou secundária). Eles situam a análise tanto no plano objectivo como no mundo subjectivo; na "diversidade" ou no "pluralismo das realidades e das identidades", entendido como "característica dos contextos" seus "contemporâneos".

 

4)    A. Tourraine, situando-se ao nível dos "movimentos sociais", desenvolve uma "abordagem dos quadros históricos gerais da acção" onde valoriza "uma consciência colectiva" de "um sujeito colectivo" que é necessário conhecer para "conhecer cientificamente a acção social". E, introduz o método accionalista para definir o trabalho como um exemplo de "uma acção humana sobre o mundo" e como "condição histórica do homem", ou seja, como a sua "experiência significativa (...) a partir da qual podem compreender-se as obras de civilização e as formas de organização social". E afirma ainda que, a "acção sobre o mundo não pode ser definida independentemente do seu sentido para o sujeito, nomeadamente, da vontade de criar obras, da vontade de produzir, controlar e decidir da utilização do seu produto".

 

5)    P. Bourdieu assenta a sua teoria da prática nas noções de "Habitus", "Campo" e "Capital"; e lembra que os objectos de conhecimento são "construidos" e "não passivamente registados"; lembra ainda que o "princípio da construção do objecto de conhecimento" é o "sistema das disposições estruturadas e estruturantes (os habitus) que se constrói na prática e que é sempre orientado para funções práticas. De outro modo, "o habitus" é concebido como um sistema de disposições duráveis e transponíveis que funciona como princípio gerador e organizador de práticas e de representações que podem ser objectivamente adaptados ao seu propósito, (sem supor a visão consciente dos fins ou da matriz expressa das operações necessárias para os atingir) e que são objectivamente regulados e regulares (sem serem o produto da obediência às regras) e que sendo tudo isso, são colectivamente orquestradas (sem serem o produto da acção organizadora de um chefe de orquestra)". Bourdieu situa a acção do "habitus" em "esferas da vida social" a que chama "campos", os quais se autonomizam progressivamente através da história e em torno de relações sociais e de recursos específicos diferentes de outros campos; cada campo é um "campo de forças" caracterizado por uma "distribuição desigual de recursos" e, por isso uma relação de forças"; "campo de lutas onde os agentes se confrontam para conservar ou transformar essa relação de forças. A noção de "capital" representa "uma energia de forças", "um poder"; estes "poderes sociais fundamentais" são o "capital económico", o "capital cultural", o "capital social" e o "capital simbólico"; Então, a estrutura e trajectórias dos diversos tipos de capital, seriam elementos decisivos a ter em conta na análise que respeita à identificação de actores sociais relevantes, bem como na configuração dos seus habitus e das suas práticas, situando-os no respectivo "campo" ou "espera da vida social".

 

6)    Habermas, retoma o conceito de "racionalidade" - tido como objecto central no desenvolvimento da sociologia e particularmente enquanto conceito fundamental na teoria da acção de M. Weber - e vai construindo a sua "teoria do agir comunicável" associado a formas de "intercompreensão" necessárias para iniciar e prosseguir processos de interacção social. Vai construindo esta sua perspectiva por relação às possibilidades e insuficiências que vai admitindo e desvendando a propósito do conceito de "racionalidade". No desenvolvimento da sua teoria da acção "comunicável", Habermas defende que, os que se ocupam da "acção quotidiana" devem por um lado situá-la nos "contextos do mundo vivido", e por outro lado devem ter em consideração todas as formas de "orientação da acção pelos símbolos", não podendo igualmente distanciar-se da problemática dos "fundamentos da teoria da acção" e da "compreensão do sentido na interpretação". Habermas constrói a sua tipologia de classificação e distinção das acções sociais; estando entre elas, as acções estratégicas, orientados para o sucesso e as acções comunicativas. Estas (as comunicativas) serão acções orientadas para a intercompreensão; cujos planos de acção dos actores participantes não são coordenados pelos cálculos de sucesso egocêntrico, mas por actos de intercompreensão; na actividade comunicativa os participantes não são primordialmente orientados para o sucesso próprio; eles prosseguem os seus objectivos individuais com a condição que eles possam acordar mutuamente os seus planos de acção assentando no fundamento de definições comuns de situações. Então a "negociação das definições" é uma componente essencial das "operações de interpretação" requeridas pelo agir comunicativo.

Mas para que um "auditor" (prático ou teórico) possa "agir de maneira comunicativo" e possa "compreender a significação literal dos actos de linguagem", é necessário, na perspectiva de Habermas, voltar ao "horizonte contextualizado do mundo vivido", e, às "estruturas retidas implicitamente do mundo vivido", onde se opera o processo de racionalização social, e a partir das quais as partes participantes da comunicação se entendem mutuamente a propósito de qualquer coisa. Habermas admite mesmo, que neste processo de racionalização social e do seu ponto de vista da actividade comunicacional, todas as acções incorporam um saber implícito profundamente ancorado e que é aqui considerado como componente do nosso mundo vivido. Como vemos, na perspectiva de Habermas, o conceito de "mundo vivido" com as suas componentes - contextos e saber - está estreitamente ligado e complementar ao seu conceito de actividade comunicacional.

 

7)    Luis Quéré sistematiza em quatro séries de questões, o que ele designa por, "os problemas mais recentes em discussão, em matéria da teoria da acção"; que na sua perspectiva podem ser agrupados em questões relacionadas com o "domínio da realização da acção", com a "determinação da acção", com a "explicação ou a descrição da acção" e com o "lugar a atribuir à acção na definição do quadro conceptual no âmbito da análise dos fenómenos sociais"(QUÉRÉ, 1993:9-19).

 

Quéré vai posteriormente admitir uma "linguagem específica da acção" como uma "propriedade específica da acção", ou seja, a "acção (...) pode dizer-se (...) é comunicável numa linguagem que parece específica (...)" sendo então necessário tomar posição quanto ao "tratamento" a reservar para esta "semântica natural da acção". A linguagem específica da acção é aqui entendida como "um sistema conceptual" que comporta algumas noções como - motivo, intenção, desejo, fim, deliberação, vontade, constrangimentos, resultados, resultados esperados, etc. - "as quais se organizam em rede, o que faz com que se inter-signifiquem de tal maneira que, saber utilizar de maneira significante e apropriada uma destas noções, é saber utilizar de maneira significante e apropriada a rede na totalidade"(RICOEUR, 1990:75 in Quéré, 1993a:57). Do ponto de vista de Quéré, esta rede conceptual permite configurar a acção, em resposta a um questionamento que lhe é também específico; sendo então o género de questões susceptíveis de serem colocados ao "sujeito da acção": - "o que fez ou fez o quê; porquê, como, em que circunstâncias, com que resultados e quais as consequências"(QUÉRÉ, op. cit.:58). E ainda, nesta perspectiva, estas questões interrelacionam-se:

 

- "responder à questão-porquê- permite esclarecer a questão

- o quê e quem - e vice-versa (...) e então, as noções de agente e de acção tomam forma em função da rede total das questões e dos conceitos da linguagem específica da acção"(QUÉRÉ, op. cit.).

 

Giddens , por seu lado refere que investigar a racionalização de uma acção, "é investigar (a) as ligações lógicas entre várias formas de actos ou projectos propositais; e (b) o «fundamento técnico» do conhecimento que é aplicado como «meio» nos propositais para assegurar determinados resultados".

Nesta perspectiva, um investigador da acção pode ficar satisfeito por saber o que o outro faz, e querer saber qual foi o seu propósito ao fazer aquilo, ou se ele o fez intencionalmente; mas pode também querer penetrar ainda mais profundamente, até ao «fundamento» daquilo que o actor fez, o que significa perguntar-lhe sobre "a integração lógica e o conteúdo empírico da orientação que ele dá ás actividades"(GIDDENS, 1978:89).

A "racionalização da acção" refere-se aos "fundamentos de princípio dos actos" e, expressa o estabelecimento causal da actuação, ao ligar os «propósitos» ás «condições» da sua realização no âmbito da «praxis contínua da sua vida diária».

"Em vez de dizer simplesmente que as razões são ou podem ser causas, é mais rigoroso dizer que a racionalização é a expressão causal do fundamento do propósito do agente no conhecimento próprio e no conhecimento do mundo social e material que é o contexto do próprio acto"(GIDDENS, 1978:91)

 

 

CONCLUSÃO

 

Partimos dos conceitos considerados fundamentais para a teoria da acção, como são os conceitos de "acção", de "racionalidade" e de "sentido".

Procuramos trazer para o debate, de um lado dimensões mais estruturais ligadas à visão colectiva e histórica da acção, como sejam - contexto da situação da acção, o sistema de relações sociais e o conjunto de disposições e de capitais que em determinadas condições sócio-culturais e históricas produzem e reproduzem ou configuram aquelas relações sociais; de outro lado, buscamos outras dimensões mais fenomenológicas e ligadas ás relações de face-a-face que se constroem na interacção quotidiana dos agentes, como sejam - as suas orientações, propósitos, razões, as quais sendo também determinadas pelas condições objectivas de existência, dependem simultaneamente dos sentidos e das intencionalidades que os próprios agentes constroem no calor do próprio percurso da acção.

 

A compreensão da acção, neste caso, da acção profissional e, especificamente da acção profissional de assistentes sociais situados no sistema de relações sociais que configuram o campo da saúde, é do nosso ponto de vista operacionalizavel mediante as possibilidades teóricas, metodológicas e empíricas no âmbito duma teoria da acção; nomeadamente quando aquelas possibilidades são compatibilizadas numa perspectiva construtivista, ou seja, quando se procura integrar numa mesma grelha orientadora da pesquisa, dimensões, variáveis e processos que possibilitem compatibilizar a análise da acção histórica e colectiva com a compreensão da acção quotidiana dos agentes envolvidos nas relações de face-a-face.

 

 

 

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