FAMÍLIA
DO PORTADOR DE TRANSTORNO MENTAL: VITIMA OU VILÃ?
Ilda Lopes Witiuk *
Rosangela Castro Ribeiro da Silva **
RESUMO
Esta pesquisa é o resultado de nossas experiências vivenciadas
no campo de estágio na área de saúde mental em um
Hospital Psiquiátrico de Curitiba. Tem como objetivo identificar
a relação estabelecida pela família dos segmentos
de baixa renda do portador de transtorno mental, com a comunidade, com
as Instituições de atendimento e com a sociedade.
Constitui-se como foco da pesquisa os depoimentos dos familiares de portadores
transtorno mental e as relações estabelecidas com a sociedade.
Utilizamos como referencial metodológico na construção
desta pesquisa o método fundamentado no materialismo histórico
dialético.
A pesquisa do tipo qualitativa permitiu através da observação
participante e do relato oral dos familiares e dos portadores de transtorno
mental, conhecermos a realidade dos mesmos, marcada pela doença
mental, e confiscos dos direitos por parte do Estado.
FAMÍLIA DO PORTADOR DE TRANSTORNO MENTAL: VITIMA OU VILÃ?
Na realidade brasileira urge a necessidade de produções
científicas que apreendam a política de saúde no
que tange a saúde mental e a reforma psiquiátrica em andamento.
Durante o período compreendido entre 2000 e 2001, como supervisora
pedagógica ou como estagiários, atuamos e acompanhamos o
trabalho desenvolvido em um dos hospitais psiquiátricos da cidade
de Curitiba, realizando pesquisa de campo[1], observação
participante[2] e assessoria pedagógica.
No presente trabalho partilhamos os resultados de nossas pesquisas e as
experiências adquiridas, submetendo-o assim a críticas e
sugestões, entendendo ser esta uma primeira aproximação
com uma realidade onde há muito ainda por ser desvelado.
Utilizamos como referencial metodológico na construção
das pesquisas que deram origem ao presente trabalho, o método fundamentado
no materialismo histórico dialético. A pesquisa documental
foi feita com os prontuários dos pacientes internados no hospital
integral e a de campo com entrevista aos familiares, utilizamos ainda
a técnica da observação participante. O relato oral
do portador de transtorno mental e dos familiares, permitiu-nos uma maior
proximidade com a realidade daqueles marcados pelo estigma da doença
mental, e privados do direito de cidadania.
Nossa intencionalidade em dar destaque, neste trabalho, a família
do portador de transtorno mental nasceu da constatação pela
observação de que a mesma era "estigmatizada",
por atores de diversas instituições de atendimento, ouvíamos
afirmações como “eles não querem nem saber
do doente, são uns folgados, um tipo de gente que não tem
amor nem mesmo pelos seus familiares, abandonam o doente e não
querem saber de nada”(sic) . Ao mesmo tempo no cotidiano, no atendimento
individual ou grupal aos familiares, nos deparávamos com uma família
fragilizada, debilitada, sobrecarregada e sem alternativas ou recursos
de apoio para questões que se apresentavam no seu dia a dia marcado
pela doença.
Na busca de entender esta realidade complexa, a família é
vista por nós como um sujeito histórico, que de acordo com
as determinações contidas na relação Capital
X Trabalho expressa questões sociais contidas nesta totalidade.
Totalidade que envolve também a política de saúde
e mais especificamente a política de saúde mental adotada
hoje no brasil, as representações sociais de família
que cada um de nós traz, a perspectiva e o conhecimento referente
a doença mental, entre outros.
Nesse sentido nos reportamos a 1978 onde após a repressão
do regime militar ressurgem os principais movimentos sociais, entre os
quais o movimento dos trabalhadores na saúde mental, este movimento
estudou e propôs novas bases de reformulação da assistência
psiquiátrica e trouxe fortes questionamentos sobre as políticas
de assistência psiquiátrica da época.
Foram criados vários ambulatórios para atender à
pacientes portadores de doença mental. O Movimento de Trabalhadores
de Saúde Mental implementou reformas buscando a humanização
do atendimento nos hospitais psiquiátricos da rede pública.
Os principais objetivos políticos do Movimento de Trabalhadores
de Saúde Mental foram pela
- Não criação de novos leitos nos hospitais psiquiátricos;
- Regionalização das ações de saúde;
- Controle das internações na rede convêniada de
hospitais através da emissão das AIH's; e
- Expansão da rede ambulatorial de saúde, com equipe multiprofissionais.
Os ideais da luta dos trabalhadores da saúde mental são
expressos no projeto de lei do Deputado Federal Paulo Delgado (1989) que
propõe a extinção de instituições manicomiais,
a reinserção do Portador de Transtorno Mental - PTM na vida
da sociedade, e a criação de uma estrutura extra-hospitalar
de acompanhamento e apoio ao PTM. A lei propunha a substituição
progressiva dos manicômios por serviços alternativos, ou
seja, comunidades terapêuticas que dariam suporte ao paciente e
seus familiares visando com isso a desospitalização, ou
seja, o “envio do paciente para fora do hospital”.
Contudo o que constatamos no período compreendido entre 1992 e
1995 foi uma redução significativa do número de leitos,
tanto nos hospitais públicos como nos privados, numa perspectiva
de avanço e consolidação para a desinstitucionalização
do paciente portador de transtorno mental. Na maioria dos estados brasileiros
foi criado o sistema hospitalocentrico, ou seja hospital-dia, centros
e núcleos de atenção psicossocial – CAPS e
NAPS, em torno dos hospitais já existentes. Em alguns estados começam
a surgir organizações de usuários e familiares engajados
nos movimentos de defesa aos direitos do cidadão em relação
à assistência em saúde mental.
Contudo o que constatamos é que a efetivação do processo
de desospitalização com o incentivo do Estado, a não
criação de estruturas de apoio para o processo de desinstitucionalização
do portador de transtorno mental, gerou desamparo aos doentes. A redução
da responsabilidade do Estado tem acometido as famílias com a responsabilidade
de provimento de cuidados ao portador de transtorno mental.
Os familiares dos doentes se vêem desassistidos pois suas condições
econômicas e sociais não lhes possibilita condições
adequadas de cuidado.
VASCONCELOS (1992, p.67) destaca que a ameaça de desassistência
aumenta, com um certo beneplácito do próprio movimento de
luta antimanicomial que, ao ressaltar apenas os aspectos negativos das
estruturas asilares, omitem a dimensão historicamente positiva
que cumpriram ao assegurar o “direito do usuário a local
apropriado de refúgio nos períodos de sofrimento psíquico,
e do direito da família à co-responsabilidade pública
com o cuidado e tratamento de seus membros com problemas mentais”.
O que se observa em nossa realidade é que o processo de desospitalização
responsabiliza a família do portador de transtorno mental em relação
ao provimento de cuidado do doente. A família diante desta realidade
se desespera, pois a presença do doente em casa impõe exigências
de cuidado e atenção emocional e material que lhes são
inexistentes. Muitos familiares se vêem desassistidos e sem ter
o que fazer, recusam-se a levar o paciente para casa.
É importante ressaltar que quando uma família se recusa
em levar seu doente para casa é porque ela já foi abandonada
pelo Estado, pela falta de programas assistenciais que lhes garantam seus
direitos. A desospitalização tem provocado a desassistência
e o desamparo. Nesta lógica a família reproduz o processo
de exclusão, gerado pela não concretização
de proteção social através de políticas e
programas necessários ao atendimento das necessidades sociais destes
segmentos subalternizados.
Quando a sociedade e os profissionais de saúde culpam a família
– por desconsiderarem as condições sociais e econômica
destas famílias - estão reforçando as políticas
regressivas nos moldes sugeridos pela proposta neoliberal que retira o
Estado da assistência ao portador de transtorno mental e responsabiliza
a família.
A família precisa ser vista não apenas como um recurso como
um ‘lugar’ como outro qualquer. Evidentemente é um
espaço de afeto e relações personalizadas significativas,
mas nem sempre é vivenciada como um afeto positivo tanto pelo portador
de transtorno mental como pela própria família. O cuidado
da família não envolve somente amor, mas sim condições
materiais concretas para o mesmo.
Neste sentido é importante compreendermos a visão de família
predominante em nossa sociedade, a representação social
que temos de família é aquela da classe dominante, que estabeleceu
padrões sociais de “ser família" e ficou como
modelo para toda a sociedade não levando em conta as determinações
sociais e históricas de cada indivíduo.
Este modelo de família burguesa, é ultrapassado, não
podemos dizer que família é a célula mater da sociedade
porque nos últimos séculos o mundo passou por intensas transformações
sociais e marcantes mudanças culturais e valorativas.
As mudanças ocorridas na família relacionam-se a luta pela
sobrevivência, vivemos numa sociedade onde é preciso trabalhar
muito, onde a supervalorização do trabalho é uma
exigência do mundo capitalista.
O amor, o casamento, a família, a sexualidade e o trabalho, antes
vividos a partir de papéis preestabelecidos, agora não mais,
pois muitas vezes uma só pessoa tem que viver vários papéis
ao mesmo tempo.
A sociedade baseia-se no princípio de igualdade, mas é totalmente
desigual, a família brasileira tem passado por um acelerado processo
de empobrecimento, este fenômeno tem cada vez mais vitimizado as
famílias que não tem suas necessidades básicas supridas,
pois se vêem desassistidas, com isso fragilizando os vínculos
familiares cada vez mais.
A precariedade das condições de vida contribui para que
outras formas familiares se apresentem. Na maioria das vezes conciliar
a unidade doméstica, a intimidade, a relação conjugal,
o afeto e o cuidado para com os filhos é quase que impossível
pois a luta pela sobrevivência é a preocupação
central dos sujeitos embricados nesta relação.
Família é um grupo social com uma particularidade e com
uma dinâmica específica que está sujeita às
determinações sociais da macro estrutura, é o núcleo
básico da produção e reprodução social
que reforça o modo de produção capitalista.
É preciso levar em conta a família vivida e não a
idealizada, ou seja, aquela na qual observam-se diversas formas de organização
e de ligações e na qual as estratégias relacionadas
à sobrevivência muitas vezes sobrepõem aos laços
de parentesco.
Nas famílias em situação de pobreza, assalariadas,
urbanas com parcos e insuficientes recursos econômicos, (OLIVEIRA,
1995) fato que as torna vulneráveis em suas condições
de vida em geral, apreender o impacto do diagnóstico de doença
mental é uma tarefa complexa, pois, é impossível
isolar o fenômeno, que, por si só, é complexo e multifacetado,
visto que engloba a dimensão biológica, psicológica,
social e econômica. Este diagnóstico no seio da família
produz sentimentos de tristeza, angustia, medo, rejeição
e desespero.
Percebe-se que a doença mental afeta a vida familiar, o clima emocional
tencionando, as ansiedades e os encargos que recaem sobre a família,
com efeitos danosos sobre o seu funcionamento, a dinâmica familiar
é totalmente alterada.
A família fica fragilizada, suas relações internas
e externas ficam totalmente comprometidas.
O impacto que o transtorno mental provoca no grupo familiar está
estreitamente relacionado à posição que o PTM ocupa
na família. Sendo uma unidade de relações sociais
(FAUSTO NETO, 1982) estruturada com base num código de reciprocidades
em que direitos e deveres se constróem baseados em laços
consangüíneos, parentais e numa divisão sexual de trabalho
em que certas atividades ganham significados específicos e são
atribuídas a determinadas pessoas que ocupam certas posições
no grupo conforme a idade e o sexo, o transtorno mental vai afetar sobremaneira
o grupo familiar à medida que atinge aqueles sujeitos que ocupam
um papel importante na organização familiar, ou seja, um
dos cônjuges.
O homem (marido/pai) quando presente no grupo destina-se a ter o papel
de seu provedor financeiro. Quando é acometido pelo transtorno
mental tende então a comprometer a renda familiar. O fato de não
gerar renda sobrecarrega a mulher que fica responsável pelo sustento
da família, e também pelo cuidado do doente.
A mulher (esposa/mãe/dona de casa), quando é portadora de
transtorno mental parece afetar muito mais a família sua internação
afeta mais intensamente todos os seus integrantes pois “ausência
da mãe do âmbito domestico" (ZALUAR, 1985) é
o principal fator desorganizador dos grupos familiares dos segmentos de
baixa renda, pois geralmente a mãe é responsável
pelo andamento da casa e da família.
Os familiares de portador de transtorno mental convivem com o conceito
do que é “ser família" e como deve se relacionar
de acordo com o pensamento de família ideal apontando-lhes padrões
que serão inatingíveis, pois suas organizações
familiares ou os arranjos domésticos apresentam outras particularidades.
Estes familiares sofrem pressões sociais vivenciando difíceis
situações no seu dia a dia que fogem do seu controle, cria-se
então uma estratégia de sobrevivência que é
manter o doente longa da família internado em um hospital psiquiátrico,
a hospitalização libera a família de uma série
de encargos pois o doente é na maioria das vezes dependente total
ou parcial de algum membro da família que ficará disponível
para trabalhar caso o doente seja mantido no hospital.
Muitas vezes o desemprego ou o trabalho informal fazem parte desta realidade,
a rede de apoio familiar ou de vizinhança muitas vezes esgota suas
possibilidades de ajuda, a falta de políticas públicas que
lhes dê suporte precariza as condições de vida do
doente e dos familiares, que muitas vezes tranca e amarra o paciente em
algum quartinho, pois a luta pela sobrevivência impõe-se
como preocupação central.
Muitas famílias moram em casas ou barracos muito pequenos, com
várias pessoas convivendo, sem espaço de privacidade.
A impossibilidade de cuidar do doente trás culpa, rejeição,
raiva, vergonha e desamparo.
Nos últimos anos o conceito de sobrecarga familiar foi desenvolvido
para definir os encargos econômicos, físicos e emocionais
a que os familiares estão submetidos e quanto a convivência
com um paciente representa um peso. As alterações no cotidiano
da família, as relações sociais, motivados pela vergonha,
cansaço ou frustração, é comum observar os
familiares se distanciarem das atividades sociais, deixando de comparecer
a festas e eventos culturais, restringindo visitas a casa de amigos próximos
e parentes.
De modo geral, os estudos revelam que os familiares apresentam uma certa
tendência a minimizar as vivências de sobrecarga. Com a implantação
da política de desinstitucionalização, a família
passou a ser responsabilizada de cuidar do doente. Na literatura inglesa
foi introduzido o conceito de sobrecarga, fardo e peso sobre a família
de portador de transtorno mental. O convívio com o doente produz
uma sobrecarga intensa que compromete a saúde, a vida social, e
a relação com os outros familiares.
Na sociedade brasileira predomina uma visão preconceituosa em relação
ao fenômeno Doença Mental, o que acaba resultando em exclusão
afetiva, social e econômica de um grande número de pessoas.
Quando um familiar procura o serviço de saúde mental para
tratar de seu parente, são tantas dúvidas, questionamentos
e culpas[3] sentem-se paralisados, carentes de informações,
perdidos e isolados.
O preconceito da sociedade[4] acaba resultando numa exclusão afetiva,
social e econômica para o portador de transtorno mental e seus familiares,
pois para o capitalismo não interessa, quem não produz é
uma população sobrante totalmente excluída.
A luta dos portadores de transtorno mental e seus familiares deve ser
principalmente para que o doente mental tenha direito a ter direitos.
No plano social e político a cidadania é construída.
É luta, é processo de incorporação de novas
categorias aos direitos já existentes. A cidadania, então,
é mutável, apropriável e sofre transformações.
Neste sentido, a luta pela cidadania do portador de transtorno mental
se escreve na luta pelo direito das minorias, mas não só,
pois além dos clássicos direitos civis, políticos
e sociais, postulasse a invenção de uma cidadania especial,
que abarque a dimensão da subjetividade e da desrazão. (VASCONCELOS,
1997)
É de suma importância eliminarmos o preconceito e buscarmos
a garantia dos direitos dos portadores de transtorno mental e sua inclusão
nas políticas públicas de uma maneira mais efetiva.
O que podemos perceber na população com que trabalhamos
é que os familiares do portador de transtorno mental são
pessoas marcadas por um conjunto de necessidades, muitas vezes excluídos
do convívio social, enfrentam diariamente o confisco de seus direitos
elementares e buscam no serviço social, alternativas para conseguir
sobreviver.
O Brasil tem aproximadamente 45 milhões de pessoas que vivem em
estado de extrema pobreza com uma renda mensal de R$ 40,00 (quarenta reais),
em condições de subemprego ou desemprego que muitas vezes
lhes traz privações irreversíveis.
A falta de políticas públicas que garantam uma qualidade
de vida para o trabalhador é uma realidade vivenciada no cotidiano
das famílias trabalhadoras no Brasil.
Podemos dizer que são famílias abandonadas pelo Estado,
ou seja, desassistidas. As transformações que ocorreram
na sociedade contemporânea relacionadas a ordem econômica,
acarretaram a exclusão social e quando existe a doença no
cotidiano da família a vulnerabilidade dos sujeitos acontece. As
privações econômicas, as enfermidades associam-se
quotidianamente com o analfabetismo, violência, alcoolismo, desemprego,
submoradia e destituição de direitos.
Esta realidade espressa-se no relato de vários PTM que preferem
ficar no hospital do que ir para casa[5].
Entendemos que os segmentos vulneráveis, enquanto sujeitos de direitos,
necessitam de proteção especial, sendo que se faz necessária
a implantação e ampliação das políticas
publicas para atendimento das demandas emergentes da população.
A doença mental e a luta pela sobrevivência é uma
realidade na vida dessas famílias.
O portador de transtorno mental dependendo da gravidade de sua doença
requer cuidados constantes, não podendo ficar sozinho e com isso
sobrecarregando os seus cuidadores. Quando um dos cônjuges neste
caso, o homem é acometido pela doença mental e a mulher
tem que ficar responsável pelo sustento da família, recai
sobre ela uma sobrecarga pois tem que cuidar dos filhos, prover recursos
financeiros para sobrevivência e ainda se responsabilizar pelo doente[6].
Muitas famílias se vêem obrigadas a manter o doente longe
de casa, internado no hospital, pois é a única estratégia
para conseguir sobreviver, a hospitalização libera a família
de uma serie de encargos.
Com a implantação da política de desinstitucionalização
o Estado se isenta e responsabiliza a família, sendo que quando
o mesmo recebe alta a família do doente é obrigada a cuidar
dele e leva-lo para casa, não importando suas reais condições.
É importante ressaltar que o cuidado com o doente mental impõe
exigências emocionais e materiais que são inexistentes na
realidade das famílias com parcos recursos financeiros, pois se
vêem desassistidas pelo Estado que mantém o ideário
neoliberal, responsabilizando os familiares. A precariedade dos programas
assistenciais que garantam os direitos do portador de transtorno mental
e de seus familiares tem sido uma realidade no cotidiano destas famílias.
A população brasileira enfrenta muitos problemas, o desemprego,
um salário mínimo que não garante o mínimo
para a sobrevivência existem milhões de portadores de transtorno
mental que sobrevivem privados dos direitos que lhe são inerentes,
a situação de miséria vivida por grande parte da
situação brasileira debilita suas relações
e vínculos familiares[7].
O preconceito com relação ao fenômeno da doença
mental resulta na marginalização afetiva e social de um
grande número de pessoas que tem o seu cotidiano marcado pela doença
o relacionamento com os vizinhos é cheio de cobranças, pois
predomina em nossa sociedade a exclusão do portador de transtorno
mental as famílias precisam de ajuda, pois chegam abaladas ao serviço
social, carentes de informações adequadas que lhes dê
suporte para lidar com a doença, a exclusão e a desassistência
do Estado.
VASCONCELLOS (2000, p. 271) diz que é importante ressaltar que
o transtorno mental implica numa sobrecarga emocional e temporal por exigir
da família de seu portador maior dedicação, tendo
em vista que, nas crises, ele precisa ser cuidado e vigiado em função
do risco de alta agressão, como também de heteroagressão[8].
A doença mental também traz a família o estigma da
doença, já que é associada a imprevisibilidade de
ações e a conduta perigosa, em decorrência disso o
portador é discriminado socialmente.
O conceito de “Doença Mental” e “Doente Mental”
traz uma conotação pública negativa[9], que pesa
nas possibilidades de conquista da cidadania. A saúde é
vista como um importante valor social, a doença apresenta uma situação
indesejável e incapacitante, mas a doença mental provoca
uma reação negativa muito mais intensa que a doença
física. É comum atribuir ao doente mental as características
de potencialmente perigo e imprevisível, sendo as causas muitas
vezes relacionadas a falta de caráter. Há na sociedade uma
tendência de associar os doentes mentais a crimes sexuais e perversidades.
O estigma é uma reação social presente que isola
certos atributos, classifica-os como indesejáveis e desvaloriza
as pessoas que a possuem.
A presença de um diagnostico é estigmatizante, a ponto de
excluir o indivíduo de qualquer possibilidade de atuação
social, passando a ser visto pela sociedade como incapaz e dependente.
Apesar das mudanças nas políticas de saúde elas,
ainda precisam ser ampliadas, pois continuam reforçando o estigma
da doença, mesmo que os indivíduos estejam fora dos hospitais,
o abandono por parte do Estado gera desassistência, exclusão
e preconceito.
São inúmeros os problemas que o Sistema Único de
Saúde apresenta[10], no atendimento ao PTM consideramos importante
destacar a precariedade dos atendimentos que são oferecidos para
a população que fica muitas horas esperando e a dura realidade
que é a falta de medicamentos para essa população
de baixa renda.
No Brasil o sucateamento dos serviços públicos, a qualidade
dos serviços prestados é uma afronta ao direito da população
que tem no seu cotidiano o confisco do seu direito por parte do Estado.
A família brasileira tem passado por um acelerado processo de empobrecimento,
este fenômeno tem cada vez mais vitimizado as famílias que
não tem suas necessidades básicas supridas, pois se vêem
desassistidas, com isso fragilizando os vínculos familiares cada
vez mais[11]. O amor, o casamento, a família, a sexualidade e o
trabalho, antes vividos a partir dos papeis pré-estabelecidos ,
agora não mais, pois muitas vezes uma só pessoa tem que
viver vários papeis ao mesmo tempo. No caso da família do
portador de transtorno mental essa situação é agravada
com o surgimento da doença, a família fica fragilizada,
suas relações internas e externas ficam totalmente comprometidas.
As mudanças no mundo do trabalho e sua precarização,
que transforma um contingente cada vez maior de mulheres em “ chefes
de família” e a ausência do pai fragiliza ainda mais
os vínculos familiares, o fato de uma mulher assumir sozinha o
cuidado dos filhos traz uma sobrecarga. Podemos destacar ainda que a condição
biológica da mulher de ser mãe não lhe dá
condições inatas de estabelecer vínculos de afeto
com o filho, o amor o afeto acontecem através da convivência
e para que possa acontecer é preciso que condições
de sobrevivência econômica física e emocional estejam
presentes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
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MOTTA, Maria Antonieta Pisano. Mães Abandonadas: a entrega de um
filho em adoção. São Paulo: Cortez, 2001.
OLIVEIRA, Betty. O trabalho educativo. Campinas: Autores Associados, 1996
QUIROGA, Consuelo. Invasão positivista no Marxismo: Manifestações
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RIBEIRO. Paulo Rennes Marçal. Saúde Mental : Dimensão
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Curitiba: Editora Juruá, 2000.
SODRÉ, Nelson Werneck. A Farsa do Neoliberalismo. Rio de Janeiro:
Graphia, 1998.
VASCONCELOS, Eduardo Mourão de Vasconcelos (org.). Saúde
Mental e Serviço Social – O desafio da subjetividade e da
insterdisciplinariedade. São Paulo: Cortez, 2000.
Notas
[1] RIBEIRO, Julio Cesar P; BUENO, Rozeli do Rocio; DANELUZ, Lilian; LEDUR,
Ires obadowski. O perfil dos portadores de transtorno mental. Graduação
em Serviço Social. PUCPR. 2002
[2] SILVA, Rosangela Castro Ribeiro. A família do portador de transtorno
mental. PUCPR, 2002.
[3] Depoimento de Dona Rosa, 49 anos, separada, cozinheira, renda mínima
R$ 350,00. "O médico disse que é depressão,
eu acho que é porque ele viu o tio morto, meu irmão ficava
o dia inteiro em casa, ele bebia muito, um dia ele pediu para o Juliano
o veneno de rato disse que ia jogar no porão e quando o Juliano
viu ele estava muito mal caído no quarto gelado [...] quando eu
cheguei lá o Juliano estava desesperado chorando muito dizia que
não tinha culpa de nada, meu irmão morreu, depois disso
o Juliano foi ficando triste, não queria ir para a escola, não
ia mais jogar bola, só ficava em casa, como eu trabalho o dia inteiro
fui deixando [...] eu não sei o que fazer ele gostava muito do
tio, o pai dele é um vagabundo nunca me ajudou em nada [...] Sabe
moça, eu tenho uma dor no peito quando eu lembro dos meus 2 meninos
pequeno, eles ficavam sozinhos em casa tinham que se virar, esquentar
a comida e fazer tudo, porque eu chegava em casa tarde da noite. Eles
ficavam lá o dia inteiro sem pai sem mãe para dar uma olhadinha,
será que não é por isso que esse menino ficou doente,
foi muito difícil para mim ter que cuidar sozinha dos meus meninos,
é duro você ter que ser o homem e a mulher da casa, ser tudo
você tem que trazer a comida para dentro de casa por que senão
ninguém mais vai trazer".
[4] D. Maria 60 anos, 4 filhos, semi alfabetizada, renda familiar 1 salário
mínimo, seu filho esta internado no hospital há 9 anos e
agora o hospital esta lhe dando alta. “ Meu filho tem problema de
cabeça porque eu não tinha como cuidar dele, eu trabalhava
a semana inteira na casa de uma família muito rica como cozinheira.
Lá tinha muitas festas eu tinha que dormir lá pois não
tinha mais ônibus para voltar para casa. Meu filho ficava com a
minha mãe e meu irmão que bebiam muito e a única
coisa que faziam para ele comer era coar um café e comprarem pão,
eu acho que se ele tivesse comido direito ele não estaria doente.
Eu sofro muito quando lembro disso, lembro que as vezes chegava em casa
tão cansada, ia dormir e não fazia uma comida para ele.
Hoje eu trago tudo para ele minhas filhas me dão dinheiro para
comprar doce, bolacha, fruta, coca–cola, tudo que eu não
dei para ele comer hoje eu dou, mas não adianta ele esta com a
cabeça ruim. Eu não posso levar ele para casa ele não
melhorou, esta muito doente. O hospital não entende que se eu levar
ele para casa meus vizinhos vão chamar a policia porque acham que
ele é doido, e doido tem que ficar é no hospital. Os vizinhos
acham que ele pode fazer mal para as crianças da vila, eu sei que
ele não faz, mais os vizinhos não acreditam, os médico
acham que eu não gosto do meu menino, mas Eus sabe que eu gosto
muito dele.
[5] Fabiano, 39 anos. “Eu não quero ir embora, na minha casa
só tem briga, é tudo ignorante, aqui pelo menos fico quieto
tem comida , fala com o médico por favor”
[6] Simone, 25 anos, empregada doméstica, 2 filhos, reside em 2
peças no fundo do quintal da sogra, renda familiar R$250,00, seu
marido esta internado à 8 meses no hospital psiquiátrico.
O hospital exige que ela leve o marido de licença para passar o
feriado em casa. “Moça você tem que entender, eu não
trabalho no feriado, mas vou limpar a casa da irmã, da minha patroa,
para conseguir mais um dinheirinho, eu não estou mais agüentando
o Antônio, ele é muito ignorante se ele voltar para casa
acha que eu não posso trabalhar pois nossa igreja diz que mulher
seria, tem que ficar em casa, cuidando do marido e dos filhos, mas se
eu não trabalhar como vai ser, minha sogra já ajuda bastante
a coitado não tem nem para ela, eu sou obrigada a trabalhar, até
gosto, minha patroa é muito boa, me ajuda e para falar a verdade
é um sossego quando o Antonio fica no hospital, eu chego faço
a janta dou um limpadinha na casa e nós vamos dormir, se ele tiver
em casa, fica só brigando comigo e com as criança [...]
levar ele de licença eu não quero levar não, só
se não tiver jeito, daí a mãe dele cuida dele, mas
eu não vou perder o dia, preciso do dinheiro”.
[7] Nilson 25 anos, portador de transtorno mental. “Minha mulher
é interesseira só que saber de dinheiro, quando eu estava
em casa trabalhava e dava o dinheiro na mão dela, estava tudo bem,
agoira que fiquei doente parece que não sou mais gente”
[8] Vilma, 52 anos, viúva, 3 filhos, reside com o filho mais velho,
recebe o beneficio do filho que é um salário mínimo,
seu filho é portador de deficiência mental grave. “O
médico falou que é a Assistente Social que decide, se dá
ou não para ficar mais um pouco, eu não tenho jeito de levar
esse menino para casa, se eu prendo ele no quarto, os vizinhos chamam
a policia, se eu solto ele fica pela rua e os vizinhos reclamam, tem medo
dele fazer algum mal para a criançada, e chamam a policia. Ele
já até apanhou dos moleques grandes, me ajuda, pelo amor
de Deus, vê se consegue mandar ele para [..], o médico falou
que eles cuidam de gente assim, meu filho mais velho trabalha com o caminhão
de cimento ele pode vir aqui e levar ele lá, se der certo, mas
eu preciso que você me ajude, porque eu não sei nem onde
fica [...] será que eles não vão judiar, será
que a comida é boa [...] eu vou rezar para dar tudo certo”.
[9] Joaquim, 55 anos. “É duro moça, a gente fica aqui
quando sai ninguém mais respeita, acha que a gente é doido,
que é bandido, ninguém entende que a gente só esta
com a cabeça ruim, o medico falo que é doença”
[10] Sebastião, 68 anos, reside com a esposa, aposentado, renda
familiar R$ 400,00, pai de um paciente P.T.M. “Doutora, o Gerson
é muito bondinho, nós não podemos levar ele para
casa agoira porque minha esposa esta muito doente, eu tenho que cuidar
dela, mas quando ela melhorar nos vamos levar, será que dá
para o hospital esperar até o final do mês, depois que eu
receber fica mais fácil, porque se eu comprar cigarro para ele
, ele acalma,[..] Aqui todo mundo é muito bom, não posso
falar do hospital, me tratam bem, não quero reclamar de nada, depois
eles marcam a gente e daí quando o Gerson voltar não vão
querer tratar ele bem. Eu prefiro obedecer quando o médico mandar
para casa eu gosto de levar mas agoira esta difícil mesmo, as vezes
nos vamos no posto eu e a minha velha e ficamos o dia inteirando para
ser atendido, pôr isso que eu queria muito que você falasse
com o médico para mm, [...] na reunião as vezes [...] acham
que nós não gostamos dos filhos, mas entendem a gente".
[11] João, 20 anos, portador de transtorno mental. "Por favor,
fala com o médico para ele me da um remédio para mim dormir
bastante, porque eu vou para casa e não quero incomodar, se eu
ficar dormindo o dia inteiro ela vai ficar contente não fica nervosa,
quero dormir dia e noite”.
* Assistente
Social graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina
Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica
do Paraná
Doutoranda pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo
Professora do Curso de Serviço Social da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná – PUCPR
** Formanda
do Curso de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica
do Paraná
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