2. Da "questão metodológica" da racionalidade: As possibilidades da compreensão dos princípios de racionalização da acção.

 

Ao definir a sua concepção de "sociologia interpretativa", Weber insistiu no significado do elemento subjectivo 0para a análise sociológica; « no sentido em que essa palavra muito ambígua é aqui utilizada, a sociologia, será a ciência que se interessa pela compreensão e interpretação das acções sociais e portanto pela explicação causal do seu curso e consequências»(WEBER, 1971 em GIDDENS, 1994:206). "Nas ciências sociais interessamo-nos por fenómenos cuja compreensão empática constitui tarefa de tipo especificamente diferente daquelas que os esquemas das ciências naturais exactas podem e se propõem executar; (...) uma das principais tarefas da análise dos fenómenos sociais consiste, pois, em tornar inteligível a base subjectiva em que essa análise assenta"(WEBER, op. cit.).

 

Segundo Giddens, um dos temas principais de Weber no ensaio sobre a objectividade nas ciências sociais e na política social, consiste na defesa do ponto de vista de que é possível fazer uma análise «objectiva» dos fenómenos históricos e sociais, apesar do facto de a actividade humana ser de carácter «subjectivo»; e por outro lado, essa subjectividade não pode ser ignorada pelas ciências sociais(WEBER, 1971 em GIDDENS, op. cit.).

 

"A acção ou conduta social (Soziales Handeln) é aquela que implica um significado subjectivo que se refere a outro indivíduo ou grupo"WEBER, 1971 em GIDDENS, op. cit.). O significado dessa acção pode ser analisado sob dois pontos de vista: quer em função do significado concreto que a acção tem para um dado agente individual, quer em função de um tipo ideal de significado subjectivo que o seu hipotético agente lhe atribua.

 

Segundo Giddens, por este ponto de vista de Weber, então não há , na prática, uma diferença clara entre a acção assim definida e o comportamento que é puramente irreflexivo ou automático (GIDDENS, 1994) . Embora Weber reconheça que "o significado subjectivo é uma componente básica de muitas condutas humanas", também defende o ponto de vista de que "o intuicionismo não é a única doutrina que nos permite estudar essa conduta subjectiva", pelo contrário, a sociologia interpretativa pode e deve "basear-se em técnicas fixas de interpretação do significado, que podem assim ser comprovadas de acordo com os cânones convencionais do método científico (...) essas técnicas podem consistir na compreensão racional das relações lógicas que são parte constituinte do enquadramento subjectivo do agente, ou numa compreensão de tipo mais emotivo-simpático"(GIDDENS, 1994:207, a propósito do pensamento de Weber). Se bem que "a empatia seja um meio importante de compreender acções perpetradas num contexto emotivo, não podemos identificar a empatia com a compreensão: a compreensão exige não só um sentimento de simpatia emocional da parte do pesquisador, como ainda a apreensão da inteligibilidade subjectiva da acção"(GIDDENS, 1994:207).

 

Não é, então, possível estabelecer uma acção unilateral entre a compreensão das proposições lógicas nesse sentido limitado e a maneira como compreendemos as acções de um homem que selecciona e utiliza racionalmente um determinado meio para atingir um determinado fim.

Na perspectiva de Giddens, e a propósito do pensamento de Weber,        "quanto mais diferentes são os ideais que orientam uma dada actividade humana daqueles que regem a nossa própria conduta, mais difícil se torna para nós compreender o significado que esses ideais têm para aquele que os partilha"(GIDDENS, 1994:208).

 

Como proceder então à compreensão científica da acção social ?

 

Ainda na concepção de Weber, a análise científica da acção social, "na medida em que pretenda ultrapassar a mera descrição, terá de recorrer à elaboração de tipos ideais"; e, dadas as dificuldades que se põem à compreensão de muitas formas de acção orientada por vários valores ou por emoções subjectivas, "será preferível elaborar tipos racionais"(WEBER, M. in GIDDENS, 1994:208).

 

As vantagens da elaboração de "tipos ideais racionais" foi também demonstrada na economia, onde esses tipos ideais são formulados com precisão e de aplicação desprovida de ambiguidade, ou seja, especifica-se no tipo ideal aquilo que se considera como acção racional (os desvios poderão ser examinados em termos de influência exercida por elementos irracionais).

 

A utilização de um tal "artifício metodológico", em Weber, não implica de modo algum a existência de um «preconceito racionalista»(GIDDENS, 1994). Ora quer se trate de querer compreender acções racionais, quer acções emotivas, Weber distingue para cada tipo de acções dois tipos básicos de apreensão interpretativa do significado: «a compreensão directa» e «a compreensão explanatória».

 

O tipo de «compreensão directa» seria possível, nomeadamente, através da observação directa no caso de uma conduta irracional, por exemplo, «compreender um acesso de cólera que se manifesta em expressões faciais, exclamações ou reacções emocionais irracionais»; ou através da compreensão directa de uma conduta racional, por exemplo, «a compreensão de uma proposição matemática, seja escrita ou ouvida».

 

O tipo de «compreensão explanatória», implica a intervenção de um motivo que estabelece a ligação entre a actividade observada e o seu significado para o agente . Na compreensão explanatória, a acção em causa é «integrada numa sequência de motivação inteligível e, a compreensão dessa sequência equivale à explicação do comportamento tal qual este se manifesta»(...).

"Numa ciência que se propõe estudar o significado subjectivo da acção, a explicação desse significado exige a apreensão de um feixe de sentidos (sinnzusammenhang) no qual se integra a trajectória da acção inteligível a interpretar"(WEBER, 1971, in GIDDENS, op. cit.).

 

A compreensão da motivação implica necessariamente relacionar a conduta específica em causa com um padrão normativo mais lato, que rege aquela conduta do indivíduo.

 

"A interpretação de uma dada trajectória da acção é subjectivamente adequada (ao nível do significado) quando a motivação que lhe é atribuída concorda com os padrões normativos reconhecidos ou habituais"(WEBER, 1971, in GIDDENS, op. cit.).

Isto significa que é necessário demonstrar que a acção em causa é significativa na medida em que «faz sentido» em termos das normas aceites.

 

Não se pode, no entanto, confundir a «adequação subjectiva» com a «adequação causal» pois, não há uma relação simples e directa entre os «feixes de significados», os motivos e a conduta(WEBER, 1971, in GIDDENS, op. cit.).

 

"Indivíduos diferentes podem executar acções semelhantes levados por motivos muito diversos, e, por outro lado, motivos semelhantes podem estar ligados a diferentes formas concretas de comportamento"(WEBER, 1971, in GIDDENS, 1994:210).

 

Então, na perspectiva de Weber, "só serão generalizações sociológicas as regularidades estatísticas que correspondem a um significado comum e inteligível de uma trajectória de acção social e, que constituam tipos inteligíveis de acção, no sentido em que o termo é utilizado.(...) Só essas formulações racionais de uma acção subjectivamente inteligível, que possam ser observadas na realidade com uma aproximação suficiente, constituirão tipos sociológicos relacionados com acontecimentos reais"(WEBER, 1971, in GIDDENS, 1994:210).

 

Weber considera que a análise e compreensão da acção social é facilitada pela utilização de tipos racionais que podem servir de padrão para a medição de desvios irracionais.

 

Os quatro tipos do agir "social" (já referidos) que Weber distingue, constituem apenas um «esquema típico ideal» para efeitos de análise da acção social, designando nomeadamente, quatro tipos de orientação da conduta social: «a conduta racional dos propósitos», «a acção racional de valor», «a acção afectiva» e a «acção tradicional».

 

Apesar desta tipificação de orientação das condutas sociais, Weber insiste que a «adequação causal» é sempre calculada em termos de «graus de probabilidade».

"Aqueles que argumentam que o comportamento humano é imprevisível, estão enganados ... As uniformidades da conduta humana só podem ser expressas em termos de probabilidade - um dado acto ou circunstância produzirá provavelmente uma dada reacção por parte do agente; toda a relação social assenta assim na probabilidade (que não pode ser confundida com o acaso, no sentido de acidente) de um agente ou uma pluralidade de agentes orientarem a sua acção de uma dada maneira"(WEBER, 1971, in GIDDENS, 1994:215).

 

"Reconhecer que na conduta humana há sempre um elemento de contingência não equivale, segundo Weber, a negar a sua regularidade e previsibilidade, mas apenas a sublinhar o contraste entre a conduta significativa e a resposta invariável a um estímulo (GIDDENS, 1994:215).

Para analisar qualquer "campo da acção humana", encontramos em Parsons um esquema geral, que ele próprio utilizou para analisar concretamente os sistemas sociais.

 

Este esquema geral de classificação, engloba quatro subsistemas muito gerais de acção humana:

 

"O organismo , a personalidade, o sistema social e o sistema cultural"(PARSONS, 1969:19). Cada um destes subsistemas, desempenha funções específicas no interior dos sistemas de acção.

 "Os sistemas culturais, especializam-se em torno da função de manutenção de padrão";

 "Os sistemas sociais, especializam-se em torno de integração de unidades de acção (indivíduos humanos ou, personalidades comprometidos com papéis)";

 "Os sistemas de personalidade, especializam-se em torno da realização de objectivos";

 "O organismo comportamental, em torno da adaptação"(PARSONS, 1969:19).

 

Nesta perspectiva, "o sistema de intervenção é um aspecto analítico que pode ser abstraído dos processos totais da acção dos seus participantes; sendo esses indivíduos,  também organismos, personalidades e participantes de sistemas culturais"(PARSONS, 1969:20).

 

Berger e Luckmann não pretendem construir uma teoria da acção, mas antes trazer para o objecto da teoria do conhecimento, o "conhecimento comum" e por isso também, o conjunto dos processos de construção social desse género de conhecimento na vida quotidiana.

 

No seu livro - A construção social da realidade -,(BERGER e LUCKMANN, 1987. Publicado pela 1ª vez em 1966 e constantemente reeditado) os autores mostram-se preocupados com a objectivação, a institucionalização e a legitimação da realidade e do conhecimento da vida quotidiana, aspectos que entendem ser de aplicação directa aos problemas da teoria da acção e das instituições sociais; entendem também ter conseguido mostrar          "como é possível combinar as posições teóricas de M. Weber e E. Durkheim, numa teoria geral da acção social"(BERGER e LUCKMANN, 1987:242-243).

 

Situam-se numa perspectiva "não positivista", embora não subestimem "os méritos do positivismo entendido no âmbito da redefinição dos cânones da pesquisa empírica para as ciências sociais"(BERGER e LUCKMANN, 1987:246); e também não neguem as "análises puramente estruturais dos fenómenos sociais sejam inteiramente adequadas para grandes áreas de pesquisa (...) indo do estudo dos pequenos grupos até aos dos vastos complexos institucionais..."(BERGER e LUCKMANN, 198:243).

 

Mas antes podemos, no entanto dizer que, inspirados na sociologia fenomenológica de Alfred Schütz, estes autores centram a sua análise sobre a construção social da realidade, a partir do conhecimento da vida quotidiana e da sua interacção nas "situações de face-a-face".

 

Nesta perspectiva, "a realidade da vida quotidiana contém esquemas de tipificação em função dos quais os outros são apreendidos e tratados nos encontros face-a-face(...); estas tipificações recíprocas entre actores fazem parte de uma negociação contínua no interior de situação face-a-face"(BERGER e LUCKMANN, 1987:50).

 

Para Berger e Luckmann, enquanto realidade objectiva, a sociedade é uma produção humana e, o homem é uma produção social.

 

A sociedade é uma realidade objectiva, enquanto exteriorizada e objectivada (ou seja, emancipada dos actores que a produzem e, constituída por mundos de objectos autónomos aos sujeitos). Esta exteriorização e objectivação opera-se através de tipificações recíprocas de acções habituais (recíproca porque os actores tipificam as instituições e as acções habituais, mas as instituições tipificam simultaneamente os actores e as suas acções individuais).

 

Também consideram que as instituições inseridas no movimento da divisão do trabalho, especializam-se, levando os actores a assumirem papeis sociais específicos e diferentes. Sendo necessário simultaneamente uma ordem cognitiva e normativa, isto é, um conjunto de formas simbólicas que valorizem aqueles papeis sociais dos actores, e legitimem a sua institucionalização.

 

Mas para estes autores, a realidade também é uma realidade subjectiva, ou seja, interiorizada através da socialização (primária e secundária, conforme se opere na infância ou em fases posteriores de aprendizagem).

 

Segundo P. Corcuff, Berger e Luckmann situam a sua análise, tanto no plano objectivo, como no mundo subjectivo, na diversidade, ou seja no "pluralismo das realidades e das identidades", entendido como característica dos nossos contextos contemporâneos (BERGER e LUCKMAA in COUCUFF, 1997:72).

 

  A teoria de acção desenvolvida por A. Touraine a partir dos anos 60 não é uma teoria "da acção localizada" através da sequência de acções e interacções, mas numa "abordagem dos quadros históricos gerais da acção"(CORCUFF, 1997). Do ponto de vista de A. Touraine, a observação da evolução da sociedade industrial (no caso: o objecto de estudo considerado pelo autor), define a situação da sociologia contemporânea enquanto estudo da acção histórica e, justifica também o desenvolvimento de uma sociologia atenta aos movimentos sociais, à criação de novas formas de organização social e de vida cultural.

 

As doutrinas sociais [1] , do ponto de vista de Touraine,  procuraram definir o sentido da acção social; o seu grande mérito foi terem definido a acção social em termos históricos e não em termos métasociais [2] .

 

Mas esta perspectiva histórica dos movimentos sociais permaneceu, durante muito tempo, "prisioneira de concepções doutrinais", directamente influenciadas pela "experiência vivida", pela "situação social dos observadores", agarrada também às "filosofias da história" cuja influência intelectual foi tão grande quanto a sua ligação à "acção prática dum movimento social organizado".

 

Estas doutrinas sociais, segundo o autor, nasceram com o desenvolvimento económico e social da industrialização europeia e designaram o trabalho e a produção como o princípio central da análise social; mas, como o surto da produção, as crises económicas e a miséria operária apareceram como sendo situações por sua vez impostas e portadoras de sentido em si mesmas, então, estas doutrinas procuravam definir uma lógica e um sentido da história, independente da consciência que os homens tinham dessa sua história; conduzindo assim "para um determinismo histórico estrito e a um voluntarismo da acção, para uma história natural das sociedades e para uma filosofia da liberdade". Em seguida, assiste-se à separação de duas espécies de realidades que os precursores tinham tentado unir:

 

    De um lado, procurou-se nas fases da história económica e da luta de classes um meio de localizar todos os factos sociais [3] .

    Do outro lado, aparecem as representações, as orientações sociais e culturais características de uma sociedade, com vista a constituir entidades designadas sociedades, culturas ou civilizações, as quais, por princípio não tem nenhum valor explicativo e que renunciam à tentativa de compreender a dinâmica de sociedades e a razão de ser da sua organização.

 

Estas dificuldades opostas e complementares, só podem ser ultrapassadas, na perspectiva de A. Touraine, se renunciarmos a contrapor ou a dicotomizar - "a situação social e a sua significação para o actor"; ou seja, se articularmos na análise, a "situação" e a "acção". E, segundo o autor, uma reflexão sobre a noção de trabalho parece capaz de assegurar esta ligação, pois "trabalho é por sua vez situação e acção"(TOURAINE, 1965:454).

 

Para o estudo específico do "trabalho", propõe um método, também específico, a que chama "accionalista", considerando que o estudo das relações sociais e das expressões simbólicas requerem outros métodos e outras noções, a que chama "funcionalistas e estruturalistas"; métodos que considera serem já constituídos como "disciplinas autónomas" no âmbito da sociologia; esta por sua vez definida "como ciência da acção social, de suas orientações, dos sistemas de relações sociais, das expressões simbólicas"(TOURAINE, 1965:11).

 

É importante realçar, que na relação entre "diversos métodos sociológicos", Tourraine considera "insensato pretender, em nome de algumas ideias, rejeitar o suporte científico considerável de gerações de etnólogos, de sociólogos ou de psicólogos sociais, "(..) não desejamos substituir o esforço da sociologia funcionalista nem da antropologia estrutural (...) nós desejamos completar ..."(TOURAINE, 1965:11).

"A sociologia accionalista", por um lado, não tem qualquer pretensão em se identificar com "a totalidade da análise sociológica"; (...) "mesmo que venha a ser possível formar um conjunto de proposições verificadas e ligadas umas ás outras, não se pode concluir que (a sociologia accionalista) permita um conhecimento suficiente da realidade social, dos acontecimentos históricos, dos comportamentos sociais concretos, individuais ou colectivos. Ela constitui apenas um dos caminhos da análise sociológica e os seus progressos não podem de maneira nenhuma marcar um recuo das análises funcionalistas ou estruturalistas"(TOURAINE, 1965:456).

 

Segundo o autor, a análise funcionalista estuda os "sistemas de relações sociais"; a análise estruturalista estuda os "sistemas de expressão simbólica"; a "análise accionalista" estuda os "sistemas da acção histórica", ou seja, coloca "princípios de explicação das orientações normativas da acção". Esta, estuda "culturas ou movimentos sociais", (...)  estuda "organizações na civilização industrial ou sujeitos colectivos" e, do mesmo modo, estuda "sujeitos pessoais".

 

A. Touraine considera que a filosofia tem a vantagem de relacionar directamente o sujeito consigo próprio, como dador de significado, como criador da sua existência, da sua arte, das suas ideias. Mas este parentesco, "não implica qualquer grau de dependência da análise sociológica (accionalista), ao olhar da filosofia"(TOURAINE, 1965:457).

 

Touraine, toma as sociedades industriais como objecto de análise e é a partir dessa análise que vai formando o método accionalista.

O primeiro elemento que considera importante é a "descoberta do sujeito" (da acção); a propósito, considera que "a significação social de uma acção não se confunde com o sentido que o actor lhe dá". Querer estabelecer esta significação ao nível mais superficial, condenámo-nos a "recorrer a explicações mecânicas que aparecem com uma certa diversidade nas opiniões e nas condutas". É necessário, pelo contrário, estar atento a uma "consciência colectiva", a qual não coincide com as "consciências individuais" e se apresenta então como um "inconsciente"(TOURAINE, 1965:26).

 

Então, a partir do momento em que se abandona "o actor individual" para tentar agarrar "um sujeito colectivo", o primeiro problema que se coloca é, refere o autor, o de propor os "princípios de interpretação geral de uma sociedade".

Por outro lado, chama-nos à atenção para o facto de que, "a investigação de uma interpretação de conjunto" conduz, nos melhores casos, a ter uma dupla visão de uma sociedade:

 

-      de um lado, a organização técnica, económica e social da produção aparece como a infra estrutura sobre a qual se eleva e por relação à qual se definem todas as outras manifestações da vida social;

-      do outro lado, a sociedade define-se por um movimento, uma vontade, um espírito que a empurra para criar riquezas de um novo tipo ou a empreender aventuras extraordinárias(TOURAINE, 1965:26-27).

 

À medida que nos distanciamos da "análise da vida económica" e nos aproximamos dos "sistemas de valores e das representações" de uma sociedade, sente-se estes cada vez menos como "reflexo" e cada vez mais "como princípio das realidades económicas"; conduzindo assim a uma "divinização da cultura" e à "reedificação do espírito".

 

Após ter mostrado a formação de diversas contradições que se estendem a todos os aspectos da civilização industrial (tanto ao trabalho como no lazer, quer à vida familiar quer à vida política), o autor reconhece a existência de dois métodos complementares ao nível da "sociologia da acção":

 

-      Um, consiste em situar os comportamentos sociais particulares de cada situação, na estrutura de um sistema de acção histórica, ou seja, o indivíduo é assim recolocado nas organizações, nos grupos de interesse, nos movimentos sociais, numa sociedade global;

-      O outro, estuda as condições nas quais se forma, no indivíduo o sujeito pessoal, no grupo um sujeito colectivo, ao nível societal os movimentos sociais, e então, combinando estes níveis de análise, estuda o movimento que conduz do projecto individual ao movimento social.

 

Mas, do ponto de vista do autor, e da sua sociologia da acção histórica, quer dizer do trabalho, -"a evolução das formas de produção, dos conflitos de classe ou de poder, do movimento operário, da família ou da vida moral, não pode compreender-se, nem pelo princípio puramente interno de transformação, nem como determinada pela mudança global da sociedade; qualquer forma de acção social deve ser considerada por referência à problemática do sujeito histórico"(TOURAINE, 1965:470). Por outro lado, a análise accionalista opõe-se à tendência comum de subordinar o estudo de um tipo de acção social a uma situação social, seja esta definida em termos de regime económico ou de visão do mundo.

 

Destes "reparos", o autor realça o princípio mais simples de toda a investigação sociológica: de que ela está condenada ao insucesso ou à pura descrição se utiliza directamente os factos sociais tais como eles aparecem ao observador.

A intenção dos estudos concretos só é justificada quando ultrapassa os factos concretos e aceita a necessidade de transformar estes, em factos científicos. E esta transformação opera-se por duas vias:

 

"a utilização de técnicas cujo traço comum é considerar o facto social como indicador de um facto sociológico";

e "o recurso a construções teóricas, cujos princípios se traduzem em métodos de raciocínio/argumentação, e estes em hipóteses"(TOURAINE, 1965:470).

 

Neste ponto de vista, a pesquisa é científica na medida em que são asseguradas a continuidade e a unidade destes dois modos de elaboração; e qualquer perspectiva teórica, quando pretende apresentar as grandes diferenças do seu modo de análise, ela deve responder a três exigências assegurando a ligação entre os três níveis duma demonstração:

 

  a construção teórica de hipóteses;

  a verificação técnica, - o isolamento de hipóteses limitadas ( a que R. Merton chama teorias intermédias);

  a inserção dos resultados num sistema técnico geral.

 

Então, a primeira tarefa duma sociologia da acção é recusar metodicamente qualquer noção directamente atribuída à realidade social, e sobretudo a interpretação dada pelos indivíduos ou as colectividades, acerca da sua acção. Qualquer que seja a utilidade prática não podemos contentar-nos com proposições que apenas permitem correlacionar uma situação objectiva profissional ou económica com certas condutas sociais, mas que não permite definir o sentido duma acção(TOURAINE, 1965:471-472).

 

Uma pesquisa "bem conduzida" constrói hipóteses, propõe um sentido aos fenómenos observados e aceita vir a terminar em sucesso ou em insucesso, recusando contudo, a consolação que trás um certo número de correlações surgidas aqui ou ali no seio do conjunto dos factos tratados. O método científico em sociologia, qualquer que sejam as formas particulares que opte, opõe-se à sociologia sistemática que organiza, por generalização e tipologisação, o dado directamente observado. O "método tipológico" permite construir conjuntos, ou tipos ideais, sem que esta construção seja sistemática(TOURAINE, 1965:472-473).

 

O autor utiliza "tipos de movimentos operários", "tipos de alienações culturais" ou "tipos de regimes políticos", mas segundo ele, apenas como forma de princípios de análise : "esta tipologia é a passagem do princípio teórico à hipótese de pesquisa; não tem, em si mesma, nenhum valor explicativo, e se o tipo não ajudasse na definição de um problema, ele seria mais um obstáculo do que um apoio, no desenvolvimento da pesquisa"(TOURAINE, 1965:473).

 

Como auto apreciação do seu modelo de análise, A. Touraine, afirma que "o accionalismo" em sociologia não é uma doutrina, mas uma teoria,  cujo enunciado geral dos seus princípios comporta, não apenas erros, mas afirmações de carácter não sociológico, porque sob pena de poder apresentar uma análise completa, introduz-se desequilíbrios e deixa guiar-se por intuições, experiências e até mesmo por evidências das quais se retiram as ideias e os interesses de uma colectividade; e - porque um sociólogo, cuja reflexão se situa numa certa perspectiva, tem tendência para privilegiar esta em detrimento de outras . Mas estas lacunas e estes erros não devem suspeitar da intenção de uma pesquisa que, definindo certos princípios de análise da acção histórica, visa completar a construção de uma sociologia científica.  "Estes princípios são, seguramente, deformados pelas condições sociais, cuja aparição suscitou a elaboração do método accionalista, mas o nosso desejo é que eles (princípios ...) marquem um progresso no esforço  de conhecer cientificamente a acção social"(TOURAINE, 1965:473-474).

 

A teoria da prática elaborada por Pierre Bourdieu(BOURDIEU, P. 1972 e 1980) surge na tentativa de superar impasses analíticos decorrentes de dualidades presentes nas teorias sociais clássicas, como: cultura/sociedade; estrutura/acção; holismo/individualismo; objectivismo/subjectivismo; dualismos que estavam associados a paradigmas concebidos como aparentemente divergentes e irredutíveis.

 

A partir da sua obra, P. Bourdieu, aspira criar um modelo teórico que possibilite entender, articuladamente dimensões mais estruturais e outras mais directa e imediatamente visíveis das práticas sociais.Trata-se, então, de "entender a vida social" enquanto produto das "condições materiais e culturais", bem como das "práticas e experiências colectivas e individuais"(CASANOVA, J.L., 1995:61-73).

 

Segundo Renato Ortiz, P. Bourdieu parte da crítica de alguns equívocos fundamentais que atribui à teoria da acção: "a qual faz do sentido objectivo das práticas ou das obras o fim objectivo da acção dos produtores dessas práticas ou dessas obras"; exemplificando, refere "o impossível homo economicus submetendo suas decisões ao cálculo racional, seus actores executando papéis ou agindo conforme modelos, ou seus locutores escolhendo entre fonemas"(ORTIZ org., 1983:60 - a propósito de Bourdieu).

 

Por outro lado, a propósito do materialismo positivista, Bourdieu lembra que os objectos de conhecimento são construidos e não passivamente registados; e contra o idealismo intelectualista, lembra que o princípio da construção do objecto de conhecimento, é o sistema das disposições estruturadas e estruturantes (os habitus) que se constrói na prática e que é sempre orientado para funções práticas.

 

Trata-se de escapar ao "realismo da estrutura" ao qual "o objectivismo (...) conduz necessariamente desde que formule hipóteses acerca destas relações, tratando-as como realidades já construidas exteriormente à história do indivíduo e do grupo"; sem cair contudo no subjectivismo, "totalmente incapaz de dar conta da necessidade do mundo social"; então é necessário voltar à prática : "lugar da dialéctica do «modus operatum» e do «modus operandi», dos produtos objectivados e dos produtos incorporados da prática histórica, das estruturas e dos habitus(BOURDIEU, 1980:87-88).

 

No sentido de superar aquelas limitações, P. Bourdieu introduz um outro modo de conhecimento teórico, que denomina "praxeológico" e cujo objectivo é o duplo processo de "interiorização da exterioridade" e de "exteriorização da interioridade", ou seja, pretende conhecer "o sistema de relações objectivas que o modo de conhecimento objectivista constrói", mas também, "as relações dialécticas entre essas estruturas objectivas e as disposições estruturadas nas quais elas (relações dialécticas) se actualizam e tendem a reproduzir(CASANOVA, 1995:61-73).

 

É com base no modo de conhecimento "praxeológico" que P. Bourdieu elabora a "teoria da prática".

A teoria da prática, por sua vez, assenta em três noções-chave no ponto de vista do autor: - Habitus, capital e campo [4] .

Relativamente à "unidade" e à "continuidade" da pessoa, accionadas tendencionalmente pelo habitus, Bourdieu chama a atenção para o facto de que, não se trata da unidade e continuidade geralmente representadas conscientemente e retrospectivamente pela própria pessoa - a estas, Bourdieu designa "a ilusão biográfica"(BOURDIEU, 1986:62-63)- mas trata-se de uma unidade e de uma continuidade, geralmente não conscientes, e que são "reconstruidas pelo sociólogo" - em função do lugar no espaço das classes sociais, das posições institucionais ocupadas, das experiências sucessivas no interior dos diferentes campos, etc., e por isso também do trajecto efectuado no mundo social.

 

Bourdieu refere que, se os "habitus individuais" são "unificantes", são também "singulares", na medida em que cada habitus individual combina de maneira específica uma diversidade (maior ou menor) de experiências sociais. Mas refere também a existência de habitus próximos, em termos de condições de existência e de trajectória do grupo social de pertença (por exemplo), originando "classes de habitus" e portanto "habitus de classes"(BOURDIEU, 1980:100-101).

 

A propósito da noção de "habitus", concebido por P. Bourdieu, como "princípio gerador", Philippe Corcuff (CORCUFF, 1995:41) coloca uma questão pertinente: -será este habitus simplesmente reprodutor das estruturas sociais das quais é produto?

"As estruturas características de uma classe determinada por condições de existência (...) produzem as estruturas do habitus que estão por seu lado no princípio da percepção e da apreensão de toda a experiência posterior"(BOURDIEU, 1980:91).

 

- "Os campos" constituem a "face da exteriorização da interioridade". O campo é uma "esfera da vida social" que se autonomizou progressivamente através da história em torno de relações sociais, de recursos específicos, diferentes de outros campos. Cada campo é um "campo de forças" caracterizado por uma "distribuição desigual de recursos" e, por isso uma "relação de forças entre dominantes e dominados"; "campo de lutas" onde os agentes se confrontam para conservar ou transformar essa relação de forças. P. Bourdieu refere, como exemplo, as instituições; não como substâncias, mas de maneira racional, como configurações de relações entre agentes individuais e colectivos [5] (CORCUFF, 1995:42).

- "O capital"(...) "é trabalho acumulado (nas suas formas materializada ou incorporada) o qual quando apropriado numa base privada e exclusiva, por agentes ou grupos de agentes, permite-lhes apropriar energia social na forma de trabalho reificada ou trabalho vivo"(BOURDIEU in CASANOVA, 1995:63).

 

Esta noção de capital é apresentada sob um modelo multiforme: -forma de um recurso que representa riqueza; -uma "energia social"; - "um poder".

 

Da abordagem que Casanova faz acerca do ponto de vista de P. Bourdieu, salienta que, então a estrutura e trajectórias dos diversos tipos de capital, seriam elementos decisivos a ter em conta na análise que respeita à identificação de actores sociais relevantes, bem como na configuração dos seus habitus e das suas práticas; sendo importante realçar que "as várias formas de capital podem (...) existir sob diferentes estados: incorporado, objectivado e institucionalizado (ex: o caso do capital informacional)"(BOURDIEU, P., 1992:95 in CASANOVA, 1995:64).

 

Ainda no âmbito do "modo de conhecimento praxeológico", e por oposição ao intelectualismo (que apreende a acção do exterior, inviesando-a, como um puro objecto do conhecimento, sem ter em conta a relação do agente com a sua acção); e questionando a postura e os efeitos do objectivismo (que atribui apriori aos objectos, encarados do exterior e assim analisados pelo sociólogo, uma homogeneidade e uma consistência sob o uso da coisa, que eles não possuem); P. Bourdieu, questiona esta "relação teórica e intelectual com a acção" por parte do agente "observador reflexivo", e sugere "uma relação prática com a prática"(CORCUFF, 1995:45-46).

 

No entanto, na sua perspectiva, convida o sociólogo a passar por um trabalho de "auto-sócio-análise" (da sua relação com o objecto que pode estar ligada á sua posição no campo intelectual, ao seu próprio percurso social, etc) a fim de tornar a pesquisa mais rigorosa.

 

Por outro lado, Corcuff considera que Bourdieu atribui uma predominância às estruturas (estruturas nas mentes e nos corpos e estruturas nas coisas e nas instituições), negligenciando o peso das interacções face-a-face no processo de construção da realidade social(CORCUFF, 1995:49).

"As interacções escondem as estruturas que aí se realizam" não constituindo senão a "actualização conjuntural da relação objectiva"(BOURDIEU, P., 1987:151 e 1990:81-82).

 

Na abordagem que Corcuff faz da obra de P. Bourdieu, conclui que este pressuposto teórico levou Bourdieu a estar pouco atento àquilo que se passa nas interacções; pois recorre relativamente pouco às descrições de situações de face-a-face. Estes aspectos levam Corcuff a questionar a firmeza da perspectiva construtivista de Bourdieu, por relação à perspectiva de Schütz que concebe as "realidades múltiplas".

 

Corcuff designa a perspectiva de Bourdieu e da sua teoria da acção -construtivismo estruturalista - pela predominância atribuída ao conhecimento das estruturas objectivas, geradoras e organizadoras das práticas na acção (CORCUFF, 1995:50).

Habermas, introduzindo os conceitos de «mundo vivido» e «agir comunicacional», retoma o conceito de «razão» (que segundo o autor, tem sido «objecto da filosofia da consciência», destituindo as «formas proposicionais» (hipóteses) e as «estruturas gramaticais» (a linguagem) da centralidade da análise, para atribuir esse lugar central na análise, ao «processo de intercompreensão».

"A minha ligação com a teoria das formas de integração social em Durkheim resulta, com efeito, de uma constelação que é determinada igualmente, quer pela herança hegeliana - Marxista e de Max Weber, quer pelo desafio lançado a outros elementos explicativos principalmente resultantes do neo-conservadorismo e do funcionalismo sistémico"(HABERMAS, 1987-I:11).

 

Ora, Habermas, vai construindo a sua teoria do agir comunicacional associado a formas de intercompreensão necessárias para iniciar e prosseguir processos de interacção social; vai construindo esta sua perspectiva (dizia eu) por relação às possibilidades e insuficiências que vai respectivamente admitindo e desvendando, a propósito do conceito de «racionalidade», tido como objecto central de análise e desenvolvimento da sociologia e particularmente enquanto conceito central na teoria da acção de M. Weber.

 

Então, o autor admite que, podemos recorrer às funções de intercompreensão linguística para explicar que "a comunhão intersubjectiva" de um acordo obtido pelo processo comunicacional, existe a três níveis - ao nível do assentimento normativo, ao nível do saber proposicional partilhado e, ao nível da confiança mútua na sinceridade subjectiva.

 

Na análise dos aspectos da racionalidade da acção com base na sua tipologia inspirada em Weber, Habermas acrescenta que, do ponto de vista da actividade comunicacional, todas estas acções incorporam um saber implícito profundamente ancorado, um saber do qual normalmente "não sabemos nada" porque é não problemático, é evidente e toma a forma de certezas do senso comum (designadas por Wittgenstein como componentes do nosso mundo vivido) (WITTGENSTEIN, in HABERMAS, op. cit.:344); normalmente o pesquisador ("teórico") parte da perspectiva do locutor que se refere pela sua expressão a qualquer coisa no mundo objectivo, social e subjectivo; mas para que um auditor (prático ou teórico) possa compreender a significação literal dos actos de linguagem e possa agir de maneira comunicacional, é, na perspectiva de Habermas, necessário voltar ao horizonte contextualizado do mundo vivido, a partir do qual as partes participantes da comunicação se entendem mutuamente a propósito de qualquer coisa.

 

Para Habermas, uma teoria da acção que pretenda ser teoria da sociedade, deve ser ligada por sua vez ao "conceito do mundo vivido" que é complementar do conceito de "actividade comunicacional".

 

Segundo Louis Quéré, os problemas mais recentes em discussão, em matéria da teoria da acção, podem agrupar-se em quatro séries de questões: as questões relacionadas com o "domínio da realização da acção"; as questões em matéria da "explicação" ou "descrição" da acção; e as relacionadas com o "lugar a atribuir à acção na definição do quadro conceptual no âmbito da análise dos fenómenos sociais"(QUÉRÉ, 1993a:9-19).

"O domínio da acção é bem aquele onde as coisas podem tomar uma forma ou outra, actualizar uma possibilidade sem necessidade, ou ser de diversas maneiras. O que supõe um campo aberto de possíveis na qual a acção opera uma selecção, em função da sua preferência. Esta selecção passa por uma deliberação concreta em vista de uma prática potencial"(Op. cit.12).

 

Apesar da selecção que a acção opera no campo de possíveis, através de uma deliberação concreta com vista a uma prática potencial, Quéré, parece admitir que a arbitrariedade pode estar presente no domínio da realização da acção, pois, perante "um campo aberto de possíveis" a selecção apenas obedece a "preferências".

 

E coloca mesmo algumas questões relativas ao processo de "observação" das regularidades da acção: - "Como dar conta das propriedades próprias do decurso da acção, sabendo-se que a sua observação (que supõe uma acção estimulada por uma necessidade e desenvolvida de forma regular) poderá captar apenas um certo número de propriedades relativas à regularidade, à repetitividade, uniformidade, concordância, estandardização? (...) - De que género de conhecimento é susceptível um tal domínio? (...) - Quais são os limites do saber teórico que visa captar/observar o necessário e o regular?"

 

Relativamente ao segundo grupo de questões, as relacionadas com "... a determinação da acção", Quéré refere que "a realização da acção é ela mesma submetida à intervenção da contingência; o seu desenvolvimento concreto não se produz nem de maneira necessária, nem de maneira regular; e o seu resultado não pode ser deduzido das suas condições iniciais.(...) Os debates contemporâneos em filosofia da acção, reforçam o caracter da contingência na determinação da acção, abordando os problemas da teoria da acção através da análise da linguagem e explicitando a constituição linguística do campo prático"(Op. cit.12).

 

Ainda, em matéria da análise de linguagem, Quéré afirma que com efeito, "(...) toda a acção é susceptível de ser descrita de muitas maneiras; e a acção determinada que constitui uma dada ocorrência, adquire a sua determinidade segundo a descrição acerca do local onde é realizada, quem a desenvolveu, ou o que foi feito. Mas a contingência, de certa maneira, está também presente quando da descrição da acção. Em particular uma acção pode ser intencional segundo uma descrição, e ser não intencional segundo outra descrição; e várias descrições podem ser verdadeiras acerca de uma mesma acção"(Op. cit.:13).

 

Uma terceira série de questões diz respeito às distinções entre os "diversos tipos de explicação da acção" e entre os "diversos níveis de descrição da acção". Quéré começa por defender que é necessário encontrar uma alternativa ao modelo da explicação causal, a qual "não é adaptada nem às propriedades do domínio da acção, nem ao seu carácter intencional"; admite como um modelo a ter em conta, a "explicação teleológica" que utiliza as principais noções da linguagem da acção, nomeadamente as de "fim" e de "motivo"; mas por outro lado questiona - "em que consiste uma forma de explicação aceitável num trabalho de tipo cientifico"(Op. cit.:13).

 

Quanto aos "diversos níveis de descrição da acção" o autor admite poder-se distinguir em função da predominância da questão do «comment» ou da questão do «pourquoi», como questões orientadoras da análise. No entanto, se a descrição pretende dar conta do "como", pode ser acusada de "descrição operacional"; se pretende dar conta do "porquê", ela pode ser chamada de "semântica".

"A descrição operacional apreende a acção sob o aspecto da sua configuração espacio-temporal como realidade sensível e inteligível; interessa-se pela organização do decurso da acção em situação; com o encadeamento dos actos constitutivos da sua realização sequencial; com o conjunto das acções e com o seu enquadramento. Dá conta de operações, de processos, de técnicas, da parte «de poiesis» que faz a "mediação entre a instituição simbólica e as determinações concretas que aparecem no campo de possíveis"(Op. cit.:14).

 

A "descrição do tipo semântico" apreende, por outro lado, os "encadeamentos realizados pela execução de uma acção", condensando-os numa categoria, quer dizer, associando-os num "contexto de sentido" dado pela "instituição simbólica" (linguagem, tipos de actividade, formas instituídas, etc.) e, imputando-os aos sujeitos da acção. Para isto, usa a rede de conceitos da linguagem da acção e as redes semânticas com a ajuda das quais, os tipos de actividade podem ser articulados.

 

Ora, segundo o autor, estes dois tipos de descrição não estão situados no mesmo plano, não adoptam o mesmo ponto de vista sobre a acção e, não são simétricos. Então, como podem eles articular-se ? Como podem ser associados num mesmo percurso científico ?

 

Uma última série de problemas, consiste na elucidação de questões relacionadas com o "lugar a atribuir à acção na definição do quadro conceptual, no âmbito da análise dos fenómenos sociais".

"Pode-se considerar a acção individual como uma unidade de base válida para a análise de um certo número de realidades sociais. Mas isto supõe considerar a acção como uma unidade primária. Ora esta suposição tem sido posta em causa por algumas teorias que consideram a acção como uma entidade derivada, emergindo de operações complexas que são efectuadas não apenas ao nível de arranjos espacio-temporais de sequências de actividade, mas ao nível da sua observação e da sua descrição, da sua apropriação e da sua atribuição (pelos e para os sujeitos da acção)"(Op. cit.:14-15).

 

Se a acção é uma "entidade derivada", então, diz o autor, não é possível ancorar a sua análise sociológica numa teoria da acção, pois isto seria admitir que uma descrição da realidade em termos da acção, participa na configuração dessa mesma realidade e não (apenas) na sua análise (Op. cit.:15).

 

Por um lado a inquietação da ciência e a preocupação da "ruptura epistemológica" interdita-o de utilizar "os conceitos que são formados fora da ciência e para as necessidades que não tem nada de científico e incitam o pesquisador a «demarcar-se das falsas evidências que dominam o espírito do vulgar»(Op. cit.:53-54).

 

Tratando-se então de dar conta das condutas e das práticas sociais numa perspectiva da explicação causal que substitui por uma linguagem "neutra" a semântica natural da acção.

Segundo Quéré, a "semântica natural da acção" tem colocado três tipos de preocupações/"obrigações" aos sociólogos: uma preocupação de reconceptualização; uma preocupação com a investigação factual, inspirada por uma inquietação epistemológica; e uma preocupação de teorização.

Quéré conclui que, seja qual for o quadro/rede (réseau) conceptual de acção adoptado (esquemas behavioristas, funcionalistas, mecanicistas ou outros), o importante é que a teorização das condutas práticas sociais, "incorpora o quadro conceptual da semântica natural como esquema de base"(QUÉRÉ, 1993:61).

 

Notas



[1] Segundo TOURAINE - as doutrinas sociais representam a pré-história da sociologia da acção.

[2] COMTE e particularmente MARX, consideram sobretudo o sentido histórico da acção social e das suas orientações.

[3] Caminho aceitável se não lhe atribuirmos um poder de explicação, que não tem; mas também, insuficiente pois é obstinado pela unidade das sociedades globais e pelas culturas.

[4] Estes conceitos de Bourdieu estão trabalhados no ponto 1.

[5] Bourdieu quando refere "agentes" quer indicar que estes são accionados, tanto do interior como do exterior, que não agem livremente.

 
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