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Perdão, justiça
ou impunidade ?
As
recentes informações veiculadas na imprensa sobre o precário estado
de saúde do ex-ditador militar chileno, Augusto Pinochet Ugarte, têm
vindo a criar nalguns meios políticos
internacionais o sentimento de que este indivíduo deve ser
considerado inimputável ou incapaz para responder perante as acusações
de genocídio. A
construção deste sentimento de perdão humanitário, pouparia a Pinochet
sentar-se no banco dos réus dos tribunais internacionais e responder
perante os crimes que lhe são imputados.
Assim, a dilatação propositada deste processo leva a que os juizes
e o réu fiquem histórica e impunemente absolvidos, desresponsabilizados.
Os
cidadãos abaixo indicados, Trabalhadores e Assistentes Sociais, estudantes
e professores de Serviço Social de Portugal, subscrevem a “Declaração de Santiago”, como um documento que testemunha publicamente
o desejo dos trabalhadores sociais latino-americanos de que seja feita
justiça e que as vítimas e os seus familiares sejam ouvidos para benefício
da humanidade, como testemunho pedagógico e lição democrática para as futuras gerações:
Para que nunca mais se tornem a repetir B. Alfredo Henríquez Cornejo,
Hirondina Chitas, Ana Sofia Dias Martins Pedro, Alcina Maria de Castro
Martins, Sónia Maria Martins dos Santos, Cláudia Sofia Gomes Inglês,
Andreia Cristina Bruno, Maria Filomena Gaspar Novo, Liliana Alexandra
Charraz Coelho de Almeida, Silvia Raquel Ferreira Salgueiro Jorge, Ana
Isabel Entrudo, Marta Inês Coutinho Sequeira, Ana Cristina Lamy Ribeiro,
Maria Augusta Geraldes Negreiros, Aida Lopes Bento Esteves Ferreira,
Carla Sofia Nunes, Regina Maria Lourenço, Bruno Filipe Boaventura Silva
Duarte, Rui Jorge Bernardo de Abreu, Ana Luisa Rodrigues, António Duarte,
Catarina Sá Nascimento, Filipa Martins Embalo, Marlene Rodrigues Braz,
João Pissarra, Maria Palma,Susana Rodrigo, Elisângela Fonseca, Clementina
Margarida Constantino, Elsa Maria, Mario Afonso, Patricia Helena Ribeiro
Lomba, Sónia Neves Gorjão Duarte, Ana Isabel Gonçalves Dias, Patricia
Dias, Ana Rita Sousa Costa,
Anabela Gonçalves, Cláudia Patricia Fabião, Ana Maria Pereira, Carla
Isabel Braz Vicente, Maria Teresa Martins, Maria Antónia Gonçalves,
Maria Henriqueta Castelo, Mariana Marques, Ana Margarida de Sousa Reis,
Ana Margarida dos Santos Calafate, João António
Baptista, Sónia Constantino, Ana Paula de Jesus Guerreiro, Marta
dos Anjos Pereira, Francisco José do Nascimento Branco, Maria Joana
Lourenço dos Anjos, Rosa Margarida Alves, Maria Joana Gonçalves dos
Santos, Maria Teresa Seródio Rosa, Dináh Ferreira, António José Pires
de Brito Guterres, Ernesto Fernandes, Edite Dos Reis Almas, Pedro Sérgio
Pina, Mariana Gonçalves, Essaú Diniz, Ana Catarina Magalhães, Maria
José Queiroz Viana, José Paulo Netto.
Lisboa,
1 de Fevereiro de 2000.
A DECLARAÇÃO DE SANTIAGO
A denominada globalização, processo
multiforme e multi-dimensional que vive a humanidade, não é outra coisa mais do que o resultado da incorporação
forçada dos nossos povos numa nova divisão internacional do trabalho,
conduzida e hegemonizada pelo capital trans-nacionalizado e as suas
corporações multinacionais.
Este processo só pode concretizar-se
na América Latina depois das ditaduras militares que assolaram o continente
nas décadas dos anos 60 a 80, em que a tirania de Pinochet foi uma das
mais brutais, cumprindo a missão do capital imperial dos Estados Unidos.
As
conquistas sociais foram arrebatadas
aos nossos trabalhadores a sangue e fogo mediante uma repressão sem piedade dirigida pelo terrorismo de Estado que, assegurados
pelo Pentágono e a CIA, com a sua guerra de baixa intensidade, justificada
pela Doutrina de Segurança Nacional, arrastou todo o continente para
um brutal genocídio.
Os
custos que os nossos povos têm pago, para se incorporarem no Capitalismo
Neo-liberal à escala planetária têm sido demasiado elevados: mais de
100.000 desaparecidos no continente, mais de 500.000 vítimas , para
além dos milhões de excluídos, perseguidos e miserabilizados.
A
profissão de Trabalho Social tem-se constituído num colectivo que, pela
sua própria natureza social e pela sua direcção histórica, tem estado
comprometido com a defesa dos ideais democráticos, de liberdade, de
justiça social e pela defesa
dos Direitos Humanos. Tais compromissos ético-políticos têm custado o exílio, a prisão, a tortura e
a desaparição de muitos colegas vitimados pelos protagonistas dos regimes
ditatoriais.
Esta
herança cultural e ética da nossa história profissional exige-nos o constante posicionamento político-profissional
frente à dinâmica realidade social, de exclusão social acelerada e de
perda de direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores.
Neste
doloroso processo histórico, os nossos povos têm vivido sob o jugo tanto
da Doutrina da Segurança Nacional como de sistemas de Democracia Tutelada.
A
construção de uma autêntica democracia participativa no político, económico,
social e cultural, passa a ser um grande desafio que enfrentam os nossos
povos no seu caminho até à sua definitiva libertação e emancipação. Para este desafio estão convocados os povos
da nossa América; neste desafio queremos trabalhar e comprometer-nos. É em tal contexto que o Colectivo de Trabalhadores
Sociais, Estudantes e demais participantes do XVI Congresso Latino-americano
de Escolas de Trabalho Social, resolve:
A.
Prestar uma
homenagem a todos os caídos no continente, àqueles que têm lutado por
um novo futuro, aos índios que enfrentaram a invasão do colonialismo
europeu, aos forjadores da nossa
independência política, aos movimentos de Camponeses, Operários, Mulheres,
Intelectuais, Artistas e de tantos Trabalhadores Sociais exilados, desaparecidos,
assassinados e torturados, que abraçaram as bandeiras da dignidade e
da liberdade.
B.
Que, visto
o actual processo jurídico que sacode e comove o mundo inteiro, com
a prisão e eventual julgamento de Pinochet e, considerando que o julgamento
e justiça para com aqueles ditadores ao serviço do Capital e do Imperialismo,
é uma dívida ainda pendente com toda a humanidade, os aqui reunidos
manifestam a vontade de que o ditador Pinochet, assim como todos responsáveis
que usurparam o poder e assolaram a nossa América Latina ao serviço
da Política do Pentágono, tenham um julgamento real e justo, que permita
não só o castigo dos seus protagonistas, como o esclarecimento que a
humanidade exige sobre as desaparições e as atrocidades
cometidas em tais processos ditatoriais, PARA QUE NUNCA MAIS SE TORNEM A REPETIR.
Santiago
de Chile, 12 de Novembro de 1998
* A Declaração de Santiago foi aprovada no XVI Seminário Latino-americano
de Escolas de Trabalho Social, que se realizou em Santiago de Chile
entre os dias 9 e 13 de Novembro de 1998 e foi convocado pela Associação
Latino-Americana de Escolas de Trabalho Social –ALAETS e pela Associação
Chilena de Escolas de Trabalho Social – ACHETS. A temática central deste histórico seminário internacional foi sobre
“A Globalização e o seu impacto no Trabalho Social a caminho do século
XXI” . |
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